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O Dilema da Infra-Estrutura Tecnológica

Marcos Troyjo, colunista do iG.com

A idéia de “plano econômico” dominou boa parte do imaginário dos economistas durante o século XX. Seu conceito, na contra-mão do que pregavam os liberais, consistia numa intervenção clara do governo no curso espontâneo que seguem os mercados.

Daí um “plano” é sempre a tentativa de acelerar um processo, ou de provocar um “atalho”, um desvio de rumo para se alcançar um determinado objetivo de política econômica. A opção pelo “plano” marca a conhecida divisão entre pensamento ortodoxo e heterodoxo. Nos últimos 50 anos, a mais exitosa dessas estratégias aplicada à infra-estrutura da economia chamou-se, no imediato pós-Segunda Grande Guerra, “Plano Marshall”. Recuperou as economias derrotadas no grande conflito e tornou-as competitivas e prósperas.

Nos anos 80, os planos econômicos tornaram-se quase sinônimos de “choques heterodoxos” nos países em desenvolvimento. É como se, diferentemente do que sugeria John Maynard Keynes, a intervenção do Estado fosse regra, e não exceção dos sistemas econômicos liberais. Voltou-se sobretudo ao tratamento de enfermidades como a inflação crônica, que tornava mais difícil o ambiente de estabilidade que favorece o investimento em infra-estrutura.

Mas agora, mesmo que alguns países contem com uma atmosfera mais estável, quando falamos em infra-estrutura, que implicações tem este termo para a nova economia? No nível internacional, qual seria o sentido contemporâneo de um novo “Plano Marshall”, que fornecesse infra-estrutura de conhecimento e tecnologias da informação para o mundo em desenvolvimento?
Infra-estrutura na economia industrial foi tradicionalmente representada pelos investimentos em portos, aeroportos, ferrovias, estradas etc. Com o florescimento do setor de serviços, o termo também passou a significar o fortalecimento das telecomunicações. Hoje, por um lado, infra-estrutura crescentemente quer dizer modalidades velozes e seguras de conectividade. Por outro, consiste na relação ágil entre universidades, unidades de pesquisa & desenvolvimento e sua tradução em produtos para o mercado.

Lembremos que o agente econômico sempre se depara com o imperativo de fazer escolhas. Estas, no entanto, são especialmente complicadas quando discutimos investimentos no setor de infra-estrutura da nova economia. A velocidade com que um aeroporto ou uma estrada se tornam obsoletos ante novas demandas é dramaticamente inferior à que o fio de cobre foi superado pela fibra ótica. Mesmo esta pode ser rapidamente ultrapassada pela crescente utilização de tecnologias de transmissão de dados por satélites.

Eis o dilema: ao desenharmos um “Plano Marshall” no ano 2000, corremos o risco de apostar em determinadas tecnologias que, ainda que consumam enormes investimentos, não serão capazes de encurtar a distância entre economias baseadas no conhecimento e aquelas ainda às voltas com a primeira revolução industrial.
Certa vez, Akio Morita, o legendário fundador e CEO da Sony, explicou o êxito da economia japonesa como resultado de “trabalho duro e águas profundas”. Aludia assim à infra-estrutura de portos, que favorecia as exportações japonesas.

É claro que o mundo carece de um “Plano Marshall” tecnológico, mesmo tendo que lidar com o ritmo – e o risco – exponencial da inovação na nova economia. Mas não há saída. No século XXI, o desempenho de uma economia será o produto de “trabalho duro e conhecimento profundo”.

Artigos anteriores:

04/09/00 A (i)lógica do novo mercado de ações
28/08/00 O que é nova economia? (2)

21/08/00 O que é nova economia? (1)

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