A
(i)lógica do novo mercado de ações
Marcos Prado Troyjo, colunista do iG
Talvez
o mais nítido termômetro do que seja a nova economia
é a NASDAQ, a bolsa eletrônica que negocia ações
de empresas de alta tecnologia, particularmente as chamadas
ponto.com nos EUA. A idéia de um mecanismo
de atração de investimentos como uma
bolsa de valores voltado a empresas de alta tecnologia
é uma experiência capitaneada pelos EUA, mas
já se debate sua proliferação na Ásia,
na Europa e mesmo na América Latina.
Agora, em que sentido o novo mercado de ações
é distinto do tradicional? É apenas a natureza
das ações negociadas que marca tal diferença,
ou há algo mais de novo que foge ao comportamento usual
dos investidores em operações clássicas
de bolsas?
Lembrando
brevemente as origens do mercado de ações, remontamos
ao mercantilismo holandês e ao próprio nascimento
do que poderíamos cunhar como um mercado financeiro,
com transações de empréstimo, o aparecimento
definitivo da figura dos juros na vida econômica, o
estabelecimento de casas bancárias etc. A bolsa desde
logo adquiriu seu caráter como espaço de troca
de mercadorias, o que permanece até hoje nos chamados
mercados de commodities, que conformam a especialidade de
praças financeiras como a City de Londres.
Mas
além disso, desenvolveu-se um modelo de capitalização
de empresas muitas das quais pertenciam originalmente
ao Estado no qual os investidores, interessados não
na administração, mas em sua lucratividade,
podiam adquirir certificados que mais tarde evoluíram
para o que hoje conhecemos como papéis preferenciais.
A
análise desses investidores baseava-se sobretudo na
noção de fundamentals (fundamentos),
dogma da prática de investimento em ações
na velha economia. Estes são caracterizados pela análise
pormenorizada de um balanço patrimonial a relação
entre ativo e passivo, a perspectiva da realização
de contratos e o histórico de lucratividade daquela
compania.
É
dizer que, na velha economia, o desempenho real,
concreto de uma certa empresa determinava sua
projeção de valor nos mercados de
ações. Ou seja, os fundamentos delineavam a
imagem. A análise objetiva influenciava
a perspectiva.
Isso
mudou na nova economia. Com o advento da NASDAQ, e a crescente
velocidade dos fluxos de investimento acionário, a
saúde financeira deixa de ser o mero resultado positivo
da interação entre faturamento e dispêndio,
amparado pela solidez de uma tradição de bons
negócios. Hoje, a expectativa e não a
retrospectiva de uma empresa de alta tecnologia determina
sua situação objetiva. Sua imagem molda seus
fundamentos.
Daí
porque empresas do tipo ponto.com, como a Amazon
e tantas outras, conseguem prosperar e tornar milionários
seus proprietários mesmo com o acúmulo
de déficits operacionais. Na velha economia, era o
histórico contábil que sugeria o real valor
de uma empresa negociada em bolsa. Na nova economia, é
o horizonte de possibilidades que conforma seu dia-a-dia,
seus fundamentos, sua performance nos mercados de ações.
Nas
bolsas tradicionais, olhávamos o passado para projetar
o futuro. O analista de ações era um historiador.
Nas bolsas eletrônicas, contemplamos o futuro para estabelecer
o presente. O analista de ações é um
meteorologista.
É
claro que mesmo as bolsas eletrônicas sofrem choques
cíclicos de realidade, e empresas fundamentalmente
mais vulneráveis são varridas do mapa, na mais
darwiniana sobrevivência do mais forte,
como amargamente sofreu a NASDAQ no primeiro semestre deste
ano.
Ainda
assim, uma inédita (i)lógica se estabelece.
Na velha economia, o passado determinava o presente. Na nova
economia, somos todos governados pelo futuro.
Artigos
anteriores:
28/08/00 O que é nova economia? (2)
21/08/00 O que é nova economia?
(1)
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