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alta tecnologia em baixa
Paul Singer,
colunista do iG.com
A bolsa
Nasdaq Composite, em que se transacionam as ações das empresas
que exploram o progresso tecnológico, está em baixa, tendo o seu
índice atingido o menor valor dos últimos 20 meses. A sua queda
se deve tanto a causas objetivas - o decréscimo dos lucros destas
empresas nos últimos trimestres - como a causas subjetivas - o
temor de que a economia estadunidense esteja caindo em recessão.
Na realidade, a queda do valor das ações de alta tecnologia já
era esperada há muito tempo, porque ele estava em nível exageradamente
alto em relação ao desempenho real das firmas.
É preciso
entender que a razão p/l (preço/lucro), o inverso da taxa de lucro,
que relaciona o valor de 'mercado' duma empresa com o lucro obtido
no último ano, reflete o passado. Ele não mede o inverso da taxa
de lucro futura a não ser que se creia que o futuro será muito
parecido com o passado. Ora, um p/l altíssimo, como o que prevalecia
na Nasdaq antes da baixa, refletia a esperança dos especuladores
de que o futuro seria muito melhor do que o passado, ou seja,
de que os lucros das empresas estaria em vias de aumentar muito
em função dos avanços tecnológicos em curso.
Os dados
dos balancetes das principais firmas mostram que esta esperança
era infundada. Foi muita sorte que a sua frustração não tenha
provocado um debacle na Nasdaq, com a desvalorização total das
ações de um momento para o outro. É sabido que os especuladores
tendem a se comportar como manada, mas desta vez nem todos abandonaram
o otimismo tecnológico, o que permitiu que a baixa se distribuísse
por muitos meses, sempre entrecortada por altas episódicas. O
que até agora permitiu que a aterrissagem na realidade se desse
de forma mais ou menos suave.
O que é preocupante
na baixa da Nasdaq é que se ela persistir (o que neste momento
parece fatal) haverá muito menos dinheiro especulativo à disposição
dos grupos que têm uma boa idéia para revolucionar p. ex. a comunicação
ou o tratamento de enfermidades congênitas. O que pode significar
maior desalento na comunidade científica e uma desaceleração do
progresso do conhecimento, hoje muito mais dependente do humor
dos especuladores financeiros do que no passado.
Ora, o progresso
científico é importante para a humanidade. Ainda recentemente,
ele era financiado sobretudo pelo erário público e contava com
recursos numa perspectiva ampla de tempo. A atividade científica
se realizava em universidades e laboratórios e instituições públicas
e repousava sobre orçamentos plurianuais. Atualmente, os recursos
estatais já não bastam e estão sendo superados em montante pelos
capitais especulativos, que em inglês se denomina venture capital,
isto é, capital de aventura.
Como se vê,
este capital pode ser abundante mas é volátil. Superabundante
durante vários anos, ele se arriscou a ser em parte desperdiçado
em projetos nem sempre bem fundamentados ou com probabilidades
ínfimas de êxito. Agora, o otimismo imprudente pode estar sendo
substituído na mente dos especuladores por um pessimismo ressentido
de quem sofreu perdas financeiras avultadas. O que pode implicar
em laboratórios desativados, equipes de bons cientistas desempregadas
e redução do volume de pesquisas.
Na lógica
cega do mercado, é inevitável que muitos justos paguem pelos pecadores.
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