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Em casa de ferreiro, espeto de pau

Paul Singer, colunista do iG.com

O impasse político-eleitoral em que se encontram os Estados Unidos revela, entre outros aspectos, como o aperfeiçoamento dos métodos de votar é importante para garantir a autenticidade do processo democrático. O empate eleitoral entre os dois principais candidatos à presidência do país é tudo o que se queira, menos uma exceção. Antes pelo contrário, é muito freqüente que o eleitorado se divida ao meio em determinadas disputas, pelo acaso dos alinhamentos político ideológicos somados aos interesses corporativos, regionais e locais, de gênero, raça, religião etc.. Em tais casos, um grande resultado político - a quem vai caber a presidência da República - passa a depender duma fração ínfima dos votos.

Acontece que, no caso em pauta, estes escassos votos se concentram no estado da Flórida e mais especificamente em alguns condados, em que o formato da cédula de votação causou tanta confusão entre os votantes que houve um número avultado de sufrágios nulos por duplo voto - o eleitor verificando que se enganou, assinalou o candidato correto mas não pôde anular o erro - e de sufrágios em Buchanan, cujo nome estava em tal posição na cédula que podia ser facilmente confundido com o de Al Gore, que era em quem estes eleitores pretendiam votar. Os números anormalmente elevados de votos nulos e em Buchanan não deixam lugar a muita dúvida de que foi isso o que aconteceu.

O estranho em tudo isso é que nos Estados Unidos, o país que lidera o mundo nas aplicações da computação eletrônica, o processo de votação permanece pré-digital. No Brasil, nossa máquinas eletrônicas jamais permitiriam tais vícios: o eleitor digita o número do candidato de sua escolha, aperta a tecla e aparece na tela nome e retrato do candidato daquele número; se não for o que o eleitor quer, ele facilmente anula a primeira escolha e faz outra. Em muitos aspectos, a democracia brasileira é imatura - o sistema partidário deixa a desejar, as campanhas são dominadas pelos candidatos que dispõem de vastos meios financeiros etc. - mas neste, que está se mostrando vital, ela sem dúvida é mais avançada do que a dos Estados Unidos.

Tudo leva a crer que, depois de resolver este imbróglio, também nossos vizinhos do norte vão modernizar seu processo de votação, quem sabe copiando o jeito brasileiro, que tem a grande vantagem de ser amigável ao eleitor, não exigindo dele que não erre, pois continua sendo verdade que errar é humano.

Permanece a lição de que o avanço tecnológico é desigual no tempo, no espaço e nos campos de aplicação. Enquanto, pela Internet, a comunicação quase instantânea entre pessoas conectadas de qualquer lugar é fácil e barata - e isso devemos sobretudo a iniciativas oficiais do governo dos EUA - a comunicação da vontade do eleitorado naquele país continua sendo feita por métodos falíveis, que induzem a engano e impedem que ele possa ser corrigidos. É provável que haja outras áreas importantes em que a informatização já deveria estar implantada mas que por inércia, descaso ou mesquinhez permanecem com métodos anacrônicos de comunicação.

A lição deste caso é que a implantação de formas atualizadas de comunicação micro-eletrônica não deveria ser deixada ao acaso dos interesses particulares. Cada país deveria procurar formular um plano nacional de informatização, em que os setores prioritários estivessem determinados de modo que crises da natureza desta, que hoje acomete os Estados Unidos, sejam prevenidas.

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