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Ciência e verdade

Paul Singer, colunista do iG.com

A Nova Economia é o produto de descobertas científicas relativamente recentes. O êxito dela em oferecer informações quase grátis e serviços on-line muito mais baratos realçou o prestígio da ciência, como responsável por tais prodígios. Nova Economia, como filha da ciência, continua ligada à mãe por um cordão umbilical à medida que os procedimentos científicos vão utilizando a informática e para fazê-lo gera novos segmentos da Nova Economia. A internet é um caso destes: surgiu inicialmente como rede interuniversitária e depois foi aberta ao uso comum.

A ciência gera um conhecimento que, em essência, não é diferente do conhecimento que todos alcançam quando observam e percebem o que se passa ao redor e ligam a nova informação assim ganha ao estoque de informações anteriormente acumulado. Esta ligação não se faz ao acaso, mas de acordo com um procedimento lógico. A nova informação é comparada com outras, do mesmo campo, e sua validade é testada. Se ela for congruente com o que indivíduo já sabe, ela integra o que chamamos de seu 'saber'; se não for, ela pode ser rejeitada ou colocada no limbo da dúvida, na condição de conhecimento provisório, que não será imediatamente descartado (esquecido), mas guardado à parte, até que novos conhecimentos venham a confirmá-lo ou negá-lo. Deste modo, todos nós estamos o tempo todo refazendo e enriquecendo o nosso saber.

Algumas vezes, o conhecimento novo incerto importa tanto que procuramos tirar a dúvida, consultando fontes externas de conhecimento: amigos e conhecidos, professores, especialistas, enciclopédias, livros etc.. Ao fazer isso, é possível que consigamos nos certificar se o novo conhecimento é verdadeiro ou falso. E é possível que, pelo contrário, a dúvida persista ou até se amplie, atingindo outros conhecimentos que tínhamos como certos. Seja como for, ao nos darmos ao trabalho de verificar novos conhecimentos sempre aprendemos, sempre haverá novos acréscimos ao nosso estoque de conhecimentos.

Os cientistas procedem de modo análogo, só que o fazem profissionalmente. O novo conhecimento que procuram é captado por observações feitas por métodos testados e controlados, para poderem ser repetidas. Isso permitirá a outros cientistas testar o novo conhecimento em sua origem, ou seja, se a observação captou a 'realidade' ou não. Nas ciências naturais e humanas medir é muito importante e gera às vezes grandes controvérsias.

Se as novas informações, captadas pelo cientista, confirmarem o conhecimento científico relevante, elas serão incorporadas nele. Mas, a ciência só avança quando o conhecimento científico é ampliado e reestruturado. Há muitas informações que negam parcial ou completamente o conhecimento anterior acumulado e tido como verdadeiro. Estas informações ficam no limbo, ou seja, são objeto de controvérsias incessantes. A ciência é, em grande parte, palco de divergências de diferentes amplitudes em todas as disciplinas.

Nas ciências humanas, há divisões profundas porque o objeto de observação - o ser humano, individual ou em sociedade - é da mesma espécie que o observador, que claramente tem interesse no que observa. O cientista só se dá ao trabalho de observar, medir e cotejar com o saber acumulado porque espera com isso influenciar o comportamento de pessoas e instituições, sobretudo as que compõem o governo. Isso faz com que cada disciplina das ciências humanas esteja dividida entre os que aceitam as instituições existentes e os que as rejeitam e propõem que sejam substituídas por outras.

O conteúdo de verdade do conhecimento é sempre provisório, seja este conhecimento leigo ou científico. Só que este é muito mais cotejado e desafiado por novas informações e novas idéias que a comunidade científica gera a cada momento. Por isso, o conhecimento científico é mais uniforme e mais consistente logicamente em suas diversas 'escolas de pensamento'. Sobre isso escreverei mais à semana que vem.

Artigos anteriores:

22/09/00 A universidade face à revolução técnica e científica
15/09/00
A Nova Economia como motor do crescimento
08/09/00 Campanha eleitoral na internet

01/09/00 Nova e Velha Economia - as Interfaces
25/08/00 A Nova Economia em perspectiva histórica

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