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A
universidade face à revolução técnica
e científica
Paul Singer,
colunista do iG.com
Embora
a universidade, como instituição existente na maioria dos países,
pareça estar em crise, ela na realidade está ganhando importância
em função da revolução técnica e científica em curso. Isso ocorre
porque o saber científico, que a universidade produz e divulga,
está sendo cada vez mais demandado, pelos governos, pelas empresas
e pela população em geral. Há muitas razões para isso, mas tudo
leva a crer que a mais importante é a credibilidade cada vez maior
da ciência em comparação com as outras fontes de saber como a
intuição, a experiência individual, a revelação religiosa etc..
Governar
exige hoje não somente vontade política e bom senso, mas domínio
do saber científico em numerosas disciplinas, do direito à economia,
passando pela estatística, saúde pública, educação escolar etc..
Candidatos a postos executivos que não tenham diplomas de curso
superior, se possível de pós-graduação, sofrem críticas constantes
de não estarem intelectualmente preparados, o que acaba por lhes
negar o voto de parte do eleitorado por esta exclusiva razão.
Cresce também o emprego de 'técnicos' por todas as áreas do aparelho
de estado, cujos pareceres sobre programas e propostas tendem
a ser acatados. O velho sonho de Platão do governo de sábios parece
se tornar realidade, embora haja motivos para duvidar da competência
e da isenção de parte dos portadores de diplomas.
As empresas, na competição pelo mercado, empregam tecnologia cada
vez mais moderna não só porque em princípio 'deve' ser superior
às mais antigas, mas também porque isso confere a elas uma imagem
de vanguardismo, que atrai tanto compradores como financiadores.
Muitas vezes, as novas tecnologias são mais fáceis de manejar
que suas precedentes, mas nem por isso o credencialismo deixa
de se espalhar. A oferta de mão-de-obra com escolaridade crescente
não para de aumentar e, portanto, as empresas deixam de empregar
candidatos com menos diplomas. A experiência no trabalho, associada
à idade do trabalhador, deixa de ser valorizada na suposição (nem
sempre justificada) de que a revolução técnica despiu de validade
toda e qualquer experiência pregressa.
A valorização da ciência atinge também os lares. As crianças e
os jovens ficam cada vez mais tempo na escola, que ensina apenas
'verdades científicas'. Os adultos recebem novos ensinamentos
científicos como empregados de empresas grandes ou de governos,
os meios de comunicação de massa se abrem cada vez mais à divulgação
dos logros das ciências. A classe média se entrega cada vez mais
aos cuidados de especialistas - médicos, dentistas, fisioterapeutas,
psicanalistas, esteticistas etc. - que lhes oferecem cuidados
e conhecimentos (autenticamente ou não) científicos.
A
universidade está premida por demandas cada vez maiores pelos
seus serviços de ensino, pesquisa e extensão. A crise aparece
pela recusa do Estado de suprir o dinheiro necessário para atender
minimamente esta sôfrega sede pela ciência universitária. O que
induz aquela parte da universidade que tem demanda solvável a
ganhar no mercado o que o orçamento público lhe nega. Mas, outra
parte da universidade produz conhecimentos que não são objeto
de demanda solvável - filosofia, arte, parte da arquitetura, linguas
etc. - e nem tem vocação para 'vender' sua produção. Esta parte
da universidade pretende produzir apenas bens públicos e que por
isso mesmo devem ser financiados pelo erário público.
A
revolução técnica e científica existe mesmo e tem contribuído
para melhorar a qualidade de vida das camadas mais endinheiradas
da sociedade, integradas cada vez mais por tecnocratas: pessoas
que ganham poder em função de sua (verdadeira ou pretensa) proficiência
técnica. Mas, há muita ingenuidade face às verdades científicas,
que são sempre provisórias e estão sempre sendo disputadas por
outras verdades que exibem as mesmas credenciais. Nem tudo que
reluz é ouro e nem tudo o que é sustentado por portadores de diploma
tem sólidas e comprovadas bases científicas. Na semana que vem
vamos discutir os critérios que a ciência usa para distinguir
entre verdade e inverdade.
Artigos
anteriores:
15/09/00 A
Nova Economia como motor do crescimento
08/09/00 Campanha eleitoral na internet
01/09/00 Nova e Velha Economia - as
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25/08/00 A Nova Economia em perspectiva
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