Massas-falidas
Aleksandar
Mandic, colunista do iG.com
O mundo
da Internet, que começou o ano 2000 a todo pano, termina com
um comportamento mais sensato e uma porção de coisas aprendidas.
Claro que esse aprendizado custou o dinheiro de muita gente
e infelizmente custou também o fechamento de algumas operações.
O que está ficando cada vez mais claro para todos é que não
existe pote de ouro no fim do arco-íris e nem em todo servidor
de Internet.
A sede
dos investidores e seu medo de estar perdendo o bonde fizeram
com que eles investissem dinheiro em operações que nem sempre
faziam muito sentido em termos de produto ou de serviço. Bom,
mas isso também aconteceu em vários ramos da indústria. Quem
nasceu nos anos 50 ou 60 deve se lembrar de que havia no país
dezenas de marcas de rádio e de televisão que já desapareceram:
ABC, Invicta, Spica, Sonata, Telefunken e outras fizeram parte
da multidão que tentou conseguir seu lugar no mercado. Os estudiosos
do nascimento da indústria contam que na primeira década deste
século havia nada menos do que cem fabricantes de automóveis
nos Estados Unidos, e que na década de 20 os fabricantes de
aviões ali eram nada menos do que 50.
O que se
vê hoje é que esse número caiu muito - houve uma seleção natural
que reduziu os fabricantes a um punhado. Se olharmos o mercado
de Internet por essa óptica, conseguiremos enxergar um fenômeno
semelhante - uma redução do número de participantes do jogo,
que acontece porque as empresas fecham, unem-se a outras para
continuar no mercado ou saem do circuito e "vendem" seus ativos,
que às vezes são as máquinas e o cadastro de clientes.
No mercado
de provimento gratuito de acesso, isso é particularmente mais
complicado: os ativos representados pelo cadastro de clientes
podem ser extremamente voláteis, porque nada garante a fidelidade
deles dentro de qualquer prazo - especialmente se aquele provedor
que vendeu o cadastro e saiu do negócio não era muito talentoso
em suas estratégias de fidelização. Isso significa que quem
comprar esse ativo (a expressão usada é "comprar usuários")
deve estar ciente de que há um alto risco envolvido - pode literalmente
estar comprando vento.
Cliente
de provedor gratuito é fiel, em tese, ao preço do acesso, que
custa nada. Zero reais. Ele costuma fazer parte da população
que prefere economizar vinte reais por mês a ter uma conexão
com garantia de tráfego em banda larga, por exemplo. Para fidelizá-lo,
é preciso acrescentar outros atrativos, que vão do e-mail gratuito
ao noticiário em tempo real.
Seja como
for, clientes de quaisquer espécie são fiéis a algumas características
básicas de um produto ou serviço: preço, utilidade e conveniência
por exemplo são itens campeões e decisivos. Sem ao menos um
deles, é grande o risco de que a fidelidade seja curta demais.
E sem fidelidade, não há negócio que se sustente - só pipoca
em estação rodoviária. E pipoca em rodoviária não vai enriquecer
ninguém.
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