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Luiz Eduardo Soares, cientista político e ex-coordenador
de Segurança, Cidadania e Justiça da Secretaria de
Segurança do Estado do Rio de Janeiro, exonerado em março
de 2000 pelo governador Anthony Garotinho por apresentar ao Ministério
Público denúncias sobre a 'banda podre' da polícia
do Estado sem sua autorização. Atualmente, é
pesquisador do Vera Institute of Justice, em Nova Iorque. Em março,
assume um cargo na Secretaria de Segurança de Porto Alegre:
"O trabalho
de MV Bill é muito bom e de grande importância. Há,
em suas letras, a poesia dura de quem conta a verdade nua e crua,
sem papas na língua. Acredito que MV Bill, ao lado do Rappa,
represente algumas das manifestações político-culturais
mais significativas do Brasil contemporâneo. Confesso que,
lendo as letras de Bill, me lembrando da sua voz rascante, do seu
ritmo forte, fico comovido, porque penso nos pais e nas mães
de tantos meninos assassinados que visitei nas favelas, quando era
coordenador de segurança e cidadania.
Fiquei
comovido porque a arte seca e amarga de MV Bill relata com emoção
o drama dos meninos perdidos entre o crime, a brutalidade policial
e o racismo de nosso apartheid social mal disfarçado. Mas
também me senti profundamente revoltado com a idéia
hipócrita e estúpida de censurá-lo. É
triste, muito triste: quando a realidade é trágica,
o Brasil costuma punir quem a revela, quem a desnuda. Quem disser
que MV Bill está estimulando a violência, não
está entendendo nada ou está mesmo mal intencionado.
Na literatura, no cinema e no teatro, muitas obras de grande qualidade
são compostas do ponto de vista do criminoso, apresentando
sua perspectiva, sua história de vida, suas contradições.
Isso não significa exaltação do crime, mas
a humanização do criminoso que, nem por isso,
é idealizado ou justificado e a reflexão sobre
as contradições da sociedade que geram o crime e o
criminoso.
MV Bill
não propõe o caminho do crime como saída para
nenhum jovem. Pelo contrário, mostra que o crime não
é um caminho, mas um beco sem saída, que conduz à
morte precoce e a todas as formas de desumanização.
MV Bill fala do que temos medo de enxergar: a forma como organizamos
nossa vida coletiva está produzindo várias modalidades
de desumanização, uma delas é o crime da juventude
pobre, da qual roubamos a esperança; e a outra é nossa
hipocrisia, que nos cega para as raízes dessa realidade terrível
e nos faz esquecer que, na favela, só há o varejo
do tráfico e que, quando lançamos a polícia
para matar os meninos do tráfico, estamos colaborando para
realimentar permanentemente o ciclo do ódio, do medo e da
reposição veloz das peças descartáveis
do tráfico.
Não
podemos continuar a tratar as favelas como territórios inimigos
contra os quais se fazem incursões bélicas, independentemente
dos custos para a vida das populações pobres. É
preciso ocupar as favelas com todos os serviços públicos
que competem ao Estado, entre os quais se inclui um policiamento
permanente, regular, respeitoso, legal, de qualidade, que vise defender
a população local. Essas áreas têm sido
vítimas da tirania do tráfico, garantida pelos criminosos
de colarinho branco, responsáveis pelo atacado do tráfico
de armas e drogas. Mas elas também têm sido vítimas
do despotismo policial. MV Bill mostra que a democracia não
chegou às favelas do Rio."
Rubem Cesar
Fernandes,
sociólogo e coordenador do Movimento Viva Rio, criado
em dezembro de 1993, impulsionado pela morte de oito menores na
Candelária e pela chacina de 21 pessoas em Vigário
Geral: "A
polêmica sobre o clipe "Soldados do Morro", de MV
Bill, foi em torno de dez minutos exibidos na televisão.
Isso é um desrespeito, um pré-julgamento. Não
conhecem o trabalho dele. O clipe se passa em um ambiente de favela,
é uma denúncia feita por um personagem, o soldado
Lobo. É isso que escandaliza: um bandido falando, o que não
acontece nesse país, a não ser sob tortura. Nós
exibimos o vídeo para mães e crianças da Favela
de Vigário Geral.
Depois,
fizemos um debate com MV Bill, com comentários muito interessantes
dos adolescentes e um ato simbólico contra a violência,
quebrando armas. Isso faz parte da campanha "Mãe, desarme
seu filho"', que o Viva Rio está promovendo em favelas
cariocas. Isso nega que o trabalho de MV Bill seja uma apologia
à violência. A possibilidade de censura é um
reflexo do preconceito contra a cultura jovem da favela, que envolve
o hip hop, o funk, o rap, e como ela é vista com horror pela
elite brasileira. Ela transformou o que poderia ser um canal de
comunicação, uma ponte, em um resultado negativo.
Em vez de valorizar essa denúncia de pessoas que vivem um
drama, jogam esse povo cada vez mais para o tráfico."
Marcos Rolim, deputado federal pelo PT do Rio Grande
do Sul e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara
Federal: "Sou
contra qualquer tipo de censura à expressão artística.
É inaceitável. Deixando a questão jurídica
de lado, destaco que a onda rapper tem demonstrado que, quando a
população das periferias se envolve com fenômenos
culturais como o hip hop, o funk, o rap, ela está simbolizando
a violência e deixando de praticá-la. Acho bom que
falem dos problemas da comunidade, pois isso é uma forma
de superá-los. Aqueles que são favoráveis à
censura padecem de uma cegueira dupla.
Além de ser uma afronta à Constituição,
não se percebe que o trabalho de MV Bill é um apelo.
A arte é um caminho que permite a superação
desse tipo de problema social. No Rio Grande do Sul, participo de
reuniões que discutem esse assunto. O rapper Bob é
ex-presidiário e se recuperou escrevendo letras de rap. Ele
elaborou um projeto para ensinar hip hop e rap nos presídios.
O caso dele é uma prova concreta de que essa expressão
artística é capaz de reintegrar alguém marginalizado
à sociedade. Há um desconhecimento dessa realidade
dramática por parte da elite, que tende a julgar esse fenômeno
cultural a partir de seus próprios padrões."
Siro
Darlan, juiz da 1ª Vara de Infância e Juventude
do Rio de Janeiro: "Não
vi o clipe, mas li muito a respeito. Acho uma denúncia válida,
de um membro da sociedade. Ele está mostrando uma realidade,
de crianças à mercê do narcotráfico,
o descaso do poder público. Segundo informações
que tive, as crianças carregam armas de brinquedo
o que é uma realidade na vida delas. Não se pode tapar
o sol com a peneira. Ele [MV Bill] é uma pessoa cultuando
a realidade dele."
Anna
Butler, diretora artística da MTV: "Na
verdade ainda não tenho uma opinião formada sobre
o caso do MV Bill, mesmo porque não assisti ao videoclipe.
Mas se for muito pesado, a TV veta."
KL
Jay, integrante do Racionais MCs e VJ da MTV: "O
cara só está mostrando a nossa realidade, o Brasil
inteiro precisa ver o que realmente acontece nos morros de todo
o Brasil, não é só no Rio.
João
Wainer, um dos diretores do clipe: "Nós
ilustramos no vídeo apenas a verdade. Filmamos sim com traficantes
de verdade e armas de verdade. Mas não para fazer apologia,
e sim para fazer uma denúncia do quadro infeliz que a sociedade
brasileira tenta abafar."
Gabriel,
vocalista do grupo de hip hop Farofa Carioca. A maioria dos
integrantes é morador de morros cariocas: "A
censura está atingindo a todos. Em outubro do ano passado,
o juiz Siro Darlan, da 1a. Vara de Infância e Adolescência,
enviou uma comissão de 15 promotores, que invadiu um espetáculo
de teatro, para qual eu fiz as músicas. A peça era
feita por cem alunos, muitos ex-moradores de rua, alguns até
que cheiravam cola na Lapa. Eles proibiram a peça, alegando
que as meninas mostravam os seios. O hip hop fala a verdade sobre
a realidade que enfrentamos, das classes ditas inferiores. Não
existe interesse do governo e da mídia de que haja esclarecimento.
Quanto mais esclarecidos, pior para eles, porque o povo vai cobrar
deles. O que nós fazemos é colocar o dedo na cara
mesmo. Nós, músicos, sentimos obrigação
de falar sobre o nosso bairro, sobre o nosso cotidiano. A maneira
do artista contribuir é falando, cantando. Na TV, o que o
cantor fala dura o tempo que interessa à mídia, o
tempo que gera Ibope. As canções não, são
mais fortes e perpetuam na mente das pessoas. Eles não têm
o direito de meter a mão no trabalho do artista. O que eles
querem é que a gente cante 'meu amor, estou no shopping,
olhei você pela vitrine e me apaixonei' e isso nós
não queremos cantar. A nossa música mostra a verdade.
A gente quer falar coisa séria. Para mim, a censura é
arbitrária e inconstitucional. Temos que reagir contra a
'ditadura da palavra'."
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