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Por André Paixão (iG Rio)

"Quero dar continuidade ao meu trabalho, mesmo que isso custe a minha liberdade"

Nascido e criado na Cidade de Deus, Zona Oeste do Rio, há 27 anos, MV Bill é respeitado e conhecido por onde passa, especialmente nas ruas da Praça do Coroado, onde mora. Bem informado sobre os principais acontecimentos do país, o articulado autor do polêmico petardo "Soldado do Morro", cujo clipe chocou muita gente, faz questão de deixar claro que sua maior preocupação são os jovens, especialmente os que moram nas favelas.

Em entrevista exclusiva ao iG, Bill diz não entender o motivo de "tanto estardalhaço" em torno de seu novo vídeo, produzido pelo cantor em parceria com a produtora Sindicato Paralelo (leia o bate-papo com o diretor Roberto T. Oliveira). E, após a análise das imagens do clipe pelas autoridades – o material foi enviado na quarta-feira, dia 10, para a Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) –, só tem um receio: perder sua liberdade e o convívio com os moradores de sua comunidade.

O empresário e produtor de MV Bill, Celso Athayde é categórico: "O motivo de termos demorado mais de um mês para enviar o vídeo para a DRE é simples, queríamos que nosso público alvo assistisse a essas imagens antes das autoridades e que eles tivessem uma opinião formada antes de toda essa polêmica".

iG  De que modo você acha que as imagens do clipe "Soldado do Morro" podem influenciar a vida dos jovens?
MV Bill  Minha maior preocupação é justamente com eles. A influência que eles podem absorver desse clipe é a mesma que um filme como "Pixote", "Rambo" e até mesmo "Orfeu", do Cacá Diegues, exerce na vida de um adolescente. Quando me propus a tomar uma postura radical, sabia que seria questionado, era previsível. A minha intenção é mostrar a realidade que está escondida no nosso dia-a-dia. Muitos têm interesse em que ela permaneça desse jeito, os mesmos que pregam a paz e acabam financiando a guerra.

iG  Você acha que o vídeo poderia ser facilmente exibido no horário nobre da TV?
MV Bill  Minha principal intenção não diz respeito à TV, pois esse projeto se tornou muito pessoal, um compromisso comigo mesmo, em forma de documentário. O vídeo tem mais de dez minutos, portanto será ignorado pelas emissoras convencionais. Meu objetivo é exibir para os moradores das comunidades e gerar discussão entre essas pessoas. Não acredito que exista uma emissora de canal aberto com coragem para exibir esse trabalho.

iG  Por que você decidiu mostrar tantas armas em seu clipe?
MV Bill  Aquelas armas representam milhares de outras armas – clandestinas ou não – que estão dentro do Brasil. As pessoas devem entender que ninguém tem o direito de andar armado. Acho errado algumas pessoas possuírem o direito de andarem armadas, é um privilégio injusto. Quem determina quais são os indivíduos capacitados a andar com armas ou não?
A lei deve servir para todos. Querem tirar aquelas cenas do meu clipe e continuar exibindo todas aquelas cenas violentas que passam desde num noticiário até num filme de "Sessão da Tarde". Essa decisão vai acabar com o armamento ilegal e o narcotráfico no Brasil? Acredito que os traficantes estão mais interessados em acabar com isso do que as próprias autoridades. Eu não dei armas para a criançada que aparece no vídeo, elas já estavam armadas quando cheguei para fazer as imagens. Outras estavam apenas com pedaços de madeira, que, nem de longe, se parecem com armas. Assumi esse compromisso comigo, peguei dinheiro dos royalties que ganhei com as minhas músicas e banquei a idéia de fazer o clipe em parceria com a produtora Sindicato Paralelo, que me ajudou bastante.

iG  A partir de que momento você percebeu que a exibição do clipe geraria polêmica?
MV Bill  Quando exibimos o clipe em Vigário Geral, fiquei ligado nas expressões dos rostos de crianças e adultos que estavam lá para assistir. Todos ali sabiam que a história mostrada é real, que faz parte do dia-a-dia da comunidade. No final, durante o debate, muitas pessoas se emocionaram, inclusive eu.

iG  Um dos personagens do clipe morreu dias depois das filmagens. Como foi sua relação com ele durante o trabalho?
MV Bill  Um dia, durante a filmagem, ele me pediu para desligar a câmera, tirou a máscara do rosto, deixou o fuzil de lado e começou a falar sobre sua vida. Contou que tinha 15 anos, um filho pequeno, que o pai era cachaceiro, e, chorando, disse que iria estar comigo para o que fosse necessário. Ele dizia: "Não gostaria de estar nessa, jogo futebol, mas estou aqui por necessidade, não desejo isso aqui para ninguém". E concordou em marcar uma entrevista para um jornal. Chegamos no dia marcado para a entrevista e ele já havia sido morto.

iG  Como é a sua relação com a comunidade da Cidade de Deus?
MV Bill  A comunidade continua me tratando da mesma forma, como o Bill de sempre, porém, com uma diferença: agora, eles estão mais dispostos a ir para a rua, a fazer manifestações, passeatas, ir para a porta da delegacia, para qualquer lugar, defender as idéias mostradas no meu clipe. A partir do momento em que começaram a passar todas aquelas matérias na TV, todos da comunidade – crianças, velhos, adolescentes – começaram a me dizer: "Bill, estamos com você, acreditamos no que você faz, sabemos qual é sua intenção e entendemos sua proposta". Para mim, a partir daquele momento, nada do que vi na TV tinha importância, porque, se as pessoas para as quais eu direciono meu discurso entenderam o que eu queria dizer, era o que bastava, o que interessava. Eles são os excluídos, o proletariado que a sociedade não enxerga. Ter o apoio deles é o meu caminho. Não só dos moradores da Cidade de Deus, onde moro, mas como os de todas as comunidades. Recebi ligações de presidentes de várias outras associações e líderes comunitários, até de fora do Estado do Rio. Sei que tenho uma missão e que não sou um artista qualquer – na verdade, não me considero um artista. Sou um cara que não faz o jogo da mídia e sei das conseqüências que meu trabalho pode causar, soando como um soco na boca do estômago da burguesia. Percebo que minha luta está apenas no início e que a revolução começou, apesar de muitas pessoas não perceberem isso. Quero dar continuidade ao meu trabalho, mesmo que isso custe a minha liberdade e até mesmo a minha vida. Mas quero deixar claro que não gostaria de ir preso, pois isso foi moda na época da ditadura, nos anos 60. Quero ficar sempre próximo às comunidades, para passar para essas pessoas as coisas nas quais acredito.

iG  Como você vê as pessoas que lutaram contra a ditadura naquela época?
MV Bill  Acho que qualquer luta pela liberdade de expressão é válida, independentemente da classe social. Apesar de o povo não ter participado, não considero inútil o que eles fizeram. Mas, hoje, a luta é outra, pelas mesmas coisas, só que de forma diferente. As pessoas estão cansadas de se sentirem enganadas, estamos em 2001. Ou as emissoras começam a falar e a entender a linguagem do povo ou terão que aceitar a violência.


iG  Como foi sua vida na Cidade de Deus?
MV Bill  Tive aquilo que chamamos por aqui de uma infância padrão da comunidade, ou seja, estudei até quando foi possível, parando para trabalhar e ajudar em casa. E quero, se for possível, construir uma família. Mas eu tive a sorte de descobrir o rap e a cultura hip hop na minha vida, o que a maioria das pessoas daqui não teve e, por isso, acabou caindo para um outro caminho. A partir desse momento, me tornei uma pessoa anormal, revi meus direitos como cidadão, sem me limitar aos meus deveres apenas. Eu diria que o preto pobre que estuda um pouco mais fica revoltado, pois descobre o quanto é explorado, ignorado e pisado. Eu gostaria que os pretos se revoltassem e não se contentassem com o que a sociedade lhes impõe. Se depender dela, todos ficam calados, conformados com seus R$ 151 por mês, sem se divertir e se alimentando mal. Vejo o povo brigando por coisas pequenas, que não fazem diferença, como futebol, mulher e cerveja, em vez de lutar por um cargo administrativo, um trabalho político. Gostaria que os pretos se rebelassem.

iG  Como você enxerga o crime organizado e o tráfico?
MV Bill  As pessoas acham que todo bandido anda de fuzil na mão. Dentro das comunidades, as crianças, os mais velhos, todos os moradores são simples soldados. Muitas vezes, aquele doce que você compra na esquina pode ter algum envolvimento com o tráfico de drogas. Todas as pessoas que moram aqui se acham um pouco criminosas, pois a sociedade faz com que elas se sintam dessa forma, por serem pretas, pobres e moradoras de uma favela. Ninguém nasce criminoso, a maldade é aprendida com o próprio homem. A mesma mão que alimenta, apresenta o fuzil AR-15. Gostaria que o crime jamais fosse uma opção para as pessoas que moram nas comunidades carentes. O direito ao estudo não nos foi dado, pois não existe interesse por parte dos privilegiados, que pensam apenas na hipótese de nos tornarmos bons cantores, jogadores de futebol ou atletas. Não querem novos advogados, médicos, professores, profissionais que podem mudar o país.

iG  O que você acha da proposta social do Rock in Rio? Você gostaria de ter sido incluído na programação do festival?
MV Bill  Rolou um convite, mas eu não quis levar para o festival apenas entretenimento, isso não é a minha cara. Num festival grande como esse, eu gostaria de apresentar mais do que isso. Queríamos não só tocar numa das tendas, mas apresentar o clipe e chamar as pessoas presentes para uma discussão, para que elas tomassem conhecimento dos nossos problemas. Mas acabou ficando por isso mesmo. Acho que projetos sociais sempre são importantes. Por isso, espero que, quando o Rock in Rio termine, os projetos tenham andamento.

iG  Muitos veículos de comunicação adoram falar da rixa entra paulistas e cariocas. Isso existe no rap?
MV Bill  Tenho contato com os Racionais, Consciência Humana, Xis, entre outros. A rixa não existe, é mais uma invenção da mídia, como acontece com o futebol. Acho que o rap conseguiu unir o país inteiro. É claro que ainda existem alguns otários bairristas. Mas a maioria dos paulistas respeita o rap do Rio de Janeiro, independentemente de ser de um estilo ou de outro. Eu acho um desperdício de tempo quando um rapper usa suas letras para se confrontar com outro. Eu faço um tipo de trabalho no Rio e o Marcelo D2, por exemplo, faz outro. Não precisamos ser inimigos pelo fato de termos algumas idéias e trabalhos diferentes. Cada um deve lutar por aquilo que acredita.

iG  Qual foi a importância da presença de artistas como Caetano Veloso, Djavan e do grupo Cidade Negra durante a festa de lançamento do clipe, na Cidade de Deus?
MV Bill
 Não creio que tenha servido para amenizar a situação. A turbulência continua e a chapa está mais quente do que nunca. Caetano deu sua a opinião sincera, pois ele teve a oportunidade de assistir ao clipe antes da festa. Foi válido, mas não pelo fato de ele ser um artista famoso, mas, sim, por lutar pelo mesmo objetivo que o meu, como ser humano. Quero que eles continuem junto comigo até o fim, principalmente se o bicho pegar.

iG  Qual é sua opinião sobre os programas de TV? Como você acha que eles podem ajudar na divulgação de seu trabalho?
MV Bill  Se fosse apenas para divulgar meu trabalho, não iria a nenhum programa de TV, pois nunca dependi disso para tornar minha música popular. Sou conhecido nas ruas, pela polêmica, pelas idéias que defendo, portanto nunca fui um grande freqüentador da televisão. Até poderia participar de alguns programas... Alguns rappers, principalmente de São Paulo, se recusam a ir a determinada emissora. Na minha opinião, são todas iguais, não há diferença entre elas, pois todas possuem o mesmo padrão "branco e mauricinho". Acho uma hipocrisia o caso de artistas que se recusam a ir à Globo, mas aparecem na MTV, só pelo fato de eles exibirem um programa com uma hora e meia de rap. Todo sistema televisivo é culpado e demagogo. Só participo dos que me interessam, nos quais posso falar minhas idéias sem ser ridicularizado. Alguns artistas fazem tudo pela fama: rebolam, imitam macaco, rolam no chão, fazem o que o apresentador manda. Eu não tenho compromisso, não preciso disso. No dia em que o rap for assim, passará a ser uma música qualquer.

iG  Quais são seus projetos para 2001?
MV Bill  Pretendo continuar exibindo o clipe de "Soldado do Morro" em comunidades carentes durante um bom tempo, promovendo discussões. Estamos com um projeto em parceria com o Viva Rio e o grupo cultural Afroreggae, chamado "Mãe, Desarme Seu Filho", em que mobilizaremos mães que perderam seus filhos, mortos por outras crianças. Em maio, mês das mães, queremos fazer um show para arrecadar fundos e colocar esse trabalho cada vez mais em prática. Vamos a Brasília pedir para que acabem com a venda de armas. O Viva Rio já conseguiu reunir mais de 1 milhão de assinaturas para impedir a venda de armas no Brasil, mas empresas multinacionais, como a Taurus, vêm ao Brasil fazer lobby com os deputados, que acabam não conseguindo acabar com esse tipo de comércio. O governo liberou a venda de armas para colecionadores. Por quê? Quem ganha com isso?