*RESENHA:
A SANGUE FRIO
DE TRUMAN CAPOTE
 




A Sangue Frio

Por Geraldo Mayrink

Toda a história já foi contada e não haveria nenhum proveito em repeti-la se não fosse o prazer em contá-la de novo. Nas primeiras horas da madrugada de 15 de novembro de 1959, quatro disparos se juntaram ao barulho da "histeria aguda dos coiotes, o arrastar seco de folhas sopradas pelo vento e o lamento distante dos apitos de locomotiva". Aconteceu em Halcomb, uma próspera vila de 270 habitantes nas planícies do oeste de Kansas, no centro dos Estados Unidos, onde plantam trigo, sorgo, beterraba e capim e criam gado e carneiros. Tem poucas ruas "sem nome, sem sombras e sem calçamento" e na sua estação ferroviária os trens expressos não param, só os de carga.

Ninguém ouviu os tiros que mataram quatro pessoas de uma mesma família. Herbert William Clutter, fazendeiro de 48 anos, homem forte, afável e muito estimado na comunidade. Sua mulher Bonnie Fox, de 45, portadora de "leves problemas nervosos" que muito preocupavam o marido. E seus filhos adolescentes, Kenyon, espichado no seu l,80 metro de altura, caçador de faisões e coiotes, e Nancy, que fazia tortas fabulosas e escovava os cabelos cor de areia cem vezes pela manhã cem vezes à noite, esperando a hora de entrar numa universidade para estudar artes. Foram encontrados amarrados e com as bocas atadas com fita adesiva. Antes de levar o tiro na cabeça o chefe da casa teve sua garganta cortada. Os assassinos levaram quarenta dólares, tudo o que acharam, além de um rádio Zenith e um par de binóculos. Sumiram no meio da noite.

É disto, e muito mais, que trata A Sangue Frio, o já clássico relato de Truman Capote (l924 - 1984) sobre a tragédia. Algumas circunstâncias contribuíram para a posição que hoje ocupa nesta zona movediça entre o jornalismo e a literatura. Esta zona é minada por posições extremadas. Gustave Flaubert, por exemplo, disse: "Não escrevo para os jornais e isto me faz mal ao bolso, mas me faz bem à alma". Ao contrário dele, Bernard Shaw sustentava: "Tudo que faço é jornalismo e o que não for jornalismo perecerá". No começo dos anos 60, havia necessidade tanto de jornalistas quanto de escritores. Foi quando os assassinatos em série começaram a se tornar dolorosamente comuns nos Estados Unidos (alguns estão relatados em A Sangue Frio), mas apenas o martírio da família Clutter transformou-se em documento histórico de uma época e obra de arte. Isto aconteceu porque o mais improvável dos cronistas se dispôs a relatá-lo. Capote, uma criatura urbana então com 35 anos, homossexual afetado e escritor de textos melífluos ( Other Voices, Other Rooms, Breakfast at Tiffany's¸ no cinema Bonequinha de Luxo, entre outros, numa obra pequena), devia dinheiro à revista The New Yorker por trabalhos pagos que ele não entregou. Achou que poderia pagar a dívida quando leu a notícia nos jornais, embora o assunto não lhe interessasse muito. Propôs fazer uma grande reportagem, embora ninguém acreditasse que, com seu l,55 metro de altura, tivesse disposição para gastar seus saltos altos batendo perna em ruas empoeiradas entrevistando caipiras de sotaque fanhoso. E remoendo sangue nestas conversas.

Pois o pequenino Truman transformou-se num gigante (ele jamais faria uso de uma analogia vulgar como esta, mas não há outra possível) . Na sua reportagem investigativa, gastou seis anos, e no final tinha a mão direita paralisada de dor (pois era à mão que escrevia) depois de entrevistar dezenas de pessoas, algumas delas várias vezes, e anotar oito mil páginas de recortes de jornais, diários e cartas dos assassinos e relatos periciais. Ele gabou-se de não ter usado gravador nem tomar nota na frente dos entrevistados, escrevendo tudo depois, com um índice de aproveitamento de 95 por cento. É difícil de acreditar, como muita gente também não acreditou que o texto era "imaculadamente factual", como seu autor sustentava. Os arraiais literários ficaram excitados com o enorme sucesso de vendas do livro (transformado depois num impressionante filme de Richard Brooks) e, mais que isso, revoltados. Capote declarou que havia criado um novo gênero, o romance de não-ficção (ou sem ficção, tanto faz), e os eruditos logo sacaram de suas estantes as obras de John Reed ( Dez Dias que Abalaram o Mundo) e Gay Talese ( Aos Olhos da Multidão), como poderiam apontar mais tarde A Luta, de Norman Mailer, ou Hiroshima , de John Hershey. Ele seria no máximo o continuador de uma tradição.

Havia ainda coisas piores atormentando a vida do pequeno grande homem. Numa crítica tão incisiva quanto boçal, o inglês Kenneth Tynan escreveu que Capote "teve tempo, dinheiro e influência para evitar a condenação dos assassinos, mas não o fez para se beneficiar literária e financeiramente com a execução da pena". Disseram, enfim, que pagou cinqüenta dólares aos condenados para que concordassem em lhes dar entrevistas e subornava os guardas para arranjar encontros íntimos com um deles, Perry Smith, de quem teria se tornado amante. Compreensivelmente, Capote rodou a baiana. Disse: "Eu crio algo realmente inovador e quem ganha os prêmios? Norman Mailer [ contemplado com o Pullitzer pelo livro " Os Exércitos da Noite"]. Nem este, nem tantos outros que me copiaram, como Bob Woodward e Carl Bernstein, nunca reconheceram que me devem alguma coisa. Então, a esta altura, posso dizer: fodam-se todos vocês".

Capote hesitou em assistir ao enforcamento no dia l4 de abri de l965, mas foi. Richard Eugene Hickcok, 33 anos, mecânico, assaltante e assassino de um negro, o louro filho de um casal de fazendeiros pobres, despencou no alçapão aos 41 minutos. Suas últimas palavras foram: "O que posso dizer sobre a pena de morte? Não sou contra. Não passa de vingança, mas não vejo nenhum problema na vingança. É uma coisa muito importante". Capote vomitou duas vezes e se retirou. Perry Edward Smith, de 36 anos, assaltante, filho de irlandês com índia cherokee puro-sangue, tocador de gaita e violão e autor dos quatro tiros que mataram a família Clutter, foi executado à lh19. Suas últimas palavras foram: "Acho um absurdo tirar a vida de uma pessoa desta maneira. Não acredito na pena de morte, nem do ponto de vista moral nem legal. Não faria sentido pedir desculpa pelo que fiz. Seria até inadequado. Mas eu queria pedir. Eu peço desculpas".

No vôo de volta a Nova York, os passageiros viram que Truman Capote chorou quase o tempo todo.