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Quem tem medo de assombração?
por Rosangela Petta
Alguns ricaços choramingam porque não receberam convite para
uma festa de casamento patrocinada pela família Matarazzo.
Cangaceiros mastigam alguns segredos sobre os dias vividos,
quase morridos, com Lampião. Monteiro Lobato, ainda de pijama,
toma canjica enquanto se acomoda na poltrona para dar entrevista.
Aberto, o guarda-roupa de Portinari, na casa em Brodósqui (SP)
já transformada em local de visitação pública, revela dois ternos
de casimira e um roupão tristonho. E não é só. Uma multidão de
escritores, artistas plásticos, cronistas, políticos, socialites,
filósofos amadores e pensadores profissionais - mais aquela gente
que, não há explicação, consegue ser tudo isso natural e
simultaneamente - se materializa nas histórias deste livro.
Precisamente, há ali 368 personagens, alguns escondidos sob
pseudônimos da profissão - "Bilm" e "Jerry", colunistas sociais
da São Paulo dos anos 40 - e outros só de passagem, ligeiros, por
citação - Jean-Paul Sartre, Albert Camus, Carl Gustav Jung e uns
tantos notáveis que foram e são assunto. Isso sem contar os
sem-nome que assopram informações em "off", aquele método
te-conto-mas-não-diga-que-fui-eu-quem-contou de passar notícia
adiante, um pedregulho inescapável da profissão de repórter.
Boa parte destes personagens já morreu e, transformada num
bloco heterogêneo de espectros extravagantes e/ou ruidosos,
entra e sai em páginas diversas dos 16 textos selecionados
para compor A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista. A
fantasmagorice impressiona, assombra, mas não é de espantar:
o autor, Joel Silveira, jornalista sergipano transplantado para
as redações de jornais e revistas do Rio de Janeiro e de São Paulo,
onde desenrolaria uma das mais admiráveis carreiras da imprensa
brasileira, completa agora 85 anos de idade.
Este é o quarto título lançado pela editora Companhia das
Letras, com pósfácio de Fernando Morais, para a coleção
Jornalismo Literário. Mas que não se espere um relato
semelhante aos outros da coleção, como Hiroshima, de
John Hersey, A Sangue Frio, de Truman Capote, ou O
Segredo de Joe Gould, de Joseph Mitchell. Pelo critério
de seleção das matérias, o primeiro brasileiro a entrar
para esta série deu de aparecer ora como repórter, ora
como cronista - e às vezes até como a própria fonte.
Isso mesmo: em alguns capítulos, chega a ocupar o
lugar de entrevistado, ao descrever cenas em que é
personagem fundamental, exemplo do capítulo
Encontro com Chatô, sobre a divertida contratação
de Joel pelos Diários Associados e as pautas que
serviam ao mandarinato de Assis Chateaubriand. Em outros,
como O Anjo Torto e o Poeta Radical, um suculento picadinho
de lembranças sobre Carlos Drummond de Andrade, Joel se
aproxima do estilo memorialista. Cadê, então, o trabalho de
repórter embutido no selo da coleção?
Antes de cravar uma resposta, é preciso desfazer um
mal-entendido. Porque "jornalismo literário" é a infeliz,
infelicíssima tradução para o português (e um português bem
do Brasil) de new journalism, nome dado pela imprensa
americana, no começo dos anos 40 do século passado, a uma
forma diferente de narrar histórias em jornais e revistas.
Essa narrativa joga luz sobretudo em detalhes, faz descrição
minuciosa de fatos, lugares e pessoas, é rica em dados e
informações cinematográficas. E ainda permite ao autor
uma liberdade incomum no notíciário curto e seco: ao
"new jornalista" é estendido o direito de entrar no
texto com suas próprias impressões, meter um adjetivo aqui,
uma ironia ali, comparar, criar imagens, explorar e ampliar
o vocabulário, piscar para o leitor. A infelicidade da tradução
é que, por jornalismo literário, muitos entendem que se está
fazendo literatura - e se esquecem que a idéia é fazer bom
jornalismo. E a matéria-prima do jornalismo não é outra senão
a reportagem.
Jornalismo literário não é "escrever bonito". É apurar bem,
apurar muito, exaustivamente, e contar o que foi apurado de
maneira envolvente. (Deu pra notar que esse processo engole
tempo e dinheiro? Não por acaso, encontrar matérias desse
tipo na imprensa brasileira de hoje é quase um exercício de
onde-está-wally.) Não que a chamada grande reportagem - e por
"grande" entenda-se o conteúdo, na vertical, e não
necessariamente o critério de extensão, na horizontal -
não fosse praticada antes. Ou alguém dúvida que Euclides
da Cunha e John Reed foram radicalmente fundo na série de
reportagens que desembocaram, respectivamente, em Os Sertões
e Os Dez Dias que Abalaram o Mundo? A tendência apenas se
acentuou naquela época, e ganhou o nome nos Estados Unidos.
Sem dúvida, foi uma reação natural de mercado: em uma
indústria editorial cada vez mais competitiva, era preciso
oferecer mais ao leitor, pelo mesmo preço. Mas foi também
um reflexo sócio-cultural - basta lembrar que, no mesmo
local e na mesma época, o jazz vivia um momento parecido,
onde a expressão individual do músico, harmonioso com os
outros instrumentos, era hipervalorizada.
Todo este parêntese agora precisa terminar para nos devolver ao
que de melhor existe em A Milésima Segunda Noite da Avenida
Paulista. Joel Silveira, repórter brilhante, brilha muito mais na
porção reportagem do livro: seja em 1943: Eram Assim os Grã-finos
em São Paulo, que abre o volume, na impagável Dezoito Poetizas
Contra o Mundo em Chamas, na matéria que dá nome ao livro (as
tais bodas de sonho dos endinheirados, com espaço aberto também
ao casamento de dois operários do grupo Matarazzo, ocorrido no
mesmo final de semana), ou na entrevista de Conversa Franca com
os Bandidos de Lampião. São aulas de jornalismo, de narrativa, de
recorte da realidade (quando se escolhe o que vale a pena ser
contado), de estilo. Infelizmente, embora o autor também seja
célebre por ter sido enviado à Itália durante a Segunda Guerra
Mundial para cobrir a ação da Força Expedicionária Brasileira
(FEB), não se incluiu uma linha desta sua correspondência. Nem
a data e o jornal ou revista em que cada texto selecionado foi
publicado pela primeira vez, o que obriga o leitor a cruzar anos,
meses e nomes por conta própria.
Isso, claro, se alguém por acaso for mordido pela curiosidade
de conhecer melhor o contexto das matérias e o trabalho de Joel
Silveira. Pelo prazer solto da leitura, basta ficar com as
histórias e os preciosos achados lingüísticos do repórter:
"voz suave e absorvente como uma esponja", "complicada floresta
de elegância", "senhoras possuídas pelos demônios da literatice",
"na sua maneira dialogada", "cabarés em estado de coma",
"enorme e desgracioso pavilhão"... E deixar cada assombração
assombrar.
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