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Joel Silveira é a perfeita definição da "testemunha ocular da história". Desde que chegou ao Rio, nos anos 30, até o início do século XXI, ele tem usado sua máquina de escrever para narrar quase tudo que de mais importante aconteceu no país, sempre com seu estilo marcado por uma ironia fina que lhe valeu o apelido de "víbora", dado pelo não menos peçonhento Assis Chateaubriand, como conta Fernando Morais no posfácio de a A milésima segunda noite da avenida Paulista. Viu a implantação da ditadura do Estado Novo; cobriu a Segunda Guerra Mundial ao lado dos pracinhas brasileiros; voltou para ver a queda do ditador Getúlio, mais tarde sua eleição "nos ombros do povo" e o suicídio "para entrar na história" que acabou por adiar um golpe de Estado; viu quando o golpe militar finalmente se consumou em 1964. Nessas oportunidades, por sorte ou técnica de repórter (muitas vezes as duas se confundem), esteve perto de figuras centrais desses episódios. Teve um "primeiro, único e desastrado encontro com Getúlio". Estava próximo de João Goulart quando Vargas se matou e próximo de Samuel Wainer quando veio o golpe que derrubou Jango; entrevistou Jânio sobre a renúncia quando o ex-presidente tentava recomeçar a vida política; visitou com JK a fazenda em que o ex-"presidente bossa-nova" concentrava sua energia empreendedora, poucos dias antes de sua estranha morte, em 1976 (numa seqüência mórbida que tirou de circulação na mesma época três políticos de oposição ao regime militar: JK, Jango e Carlos Lacerda).
Além de formar um panorama histórico interessante em si, as reportagens que compõem este livro são exemplares da contribuição de seu autor ao estilo literário no jornalismo brasileiro. Joel usa intensamente recursos da ficção para descrever com maior riqueza os fatos que narra; lança mão da metalinguagem, de flashbacks e, muito fortemente, de referências ao que andava por seu mundo interior no momento em que ocorrem os fatos narrados.
Talvez o exemplo mais claro desse subjetivismo aplicado ao jornalismo seja a descrição do dia do golpe de 1964 (a madrugada de 1o de abril, depois transformado pelos golpistas em 31 de março, para evitar piadas com o dia da mentira). No texto "A feijoada que derrubou o governo", que dá nome ao volume, Joel justapõe a descrição dos fatos e seus próprios pensamentos, como em uma montagem de Hitchcock, para narrar um poderoso banquete ocorrido no Rio dias antes do golpe, na casa de um jovem ministro (cujo nome ele não cita, mas provavelmente se trata de João Pinheiro Neto, ministro do Trabalho, ou Darcy Ribeiro, chefe da Casa Civil). Na ocasião, diversos ministros comeram uma caudalosa feijoada, a mais deliciosa de todos os tempos, regada a perfeitas batidas de limão e maracujá, e revelavam, a quem quisesse ou estivesse sóbrio para ouvir, sua confiança absoluta no "dispositivo", o esquema de segurança do presidente João Goulart. Os ecos da festa torturavam o pobre Joel Silveira, que andava perdido numa grande ressaca pelas ruas do Rio, já totalmente controladas pelo Exército golpista. Joel conclui que toda a energia do dispositivo tinha se esgotado na digestão daquela feijoada: "O dispositivo era somente aquilo: o tenro charque do Rio Grande, a língua especial trazida de Teresópolis, o orgulhoso e impávido paio português, a dourada salmoura, a primorosa batida de maracujá e também a não menos soberba batida de limão (parece que havia também a de caju), a imaculada farinha do Nordeste?".
Lido quatro décadas após o golpe, o texto de Joel recupera o pasmo que acometeu a todos aqueles brasileiros que de alguma forma acreditaram (ou quiseram acreditar) que o esquema de defesa da Presidência da República tinha alguma consistência e não cairia como um castelo de cartas ao primeiro sopro golpista - o que acabou ocorrendo.
Outro texto exemplar de seu uso personalíssimo de técnicas de narração mais comumente empregadas na literatura (ao menos até a explosão do new journalism americano) é o artigo que conta seu único encontro com Getúlio Vargas. O "Velhinho" presidente (meses antes de preferir o suicídio à queda) anda recluso, sem dar entrevistas, já parecendo aprisionado pela crescente oposição à qual a imprensa faz eco. Joel pede a um assessor que consiga uma audiência com o presidente, sem dizer o motivo. A essa altura ele já é um dos nomes mais famosos e admirados do jornalismo brasileiro. Sugere que vai pedir um emprego, mas em verdade tentará uma entrevista exclusiva que poderá tirar do atoleiro a Revista da Semana, que está editando e que não quer ver morrer em suas mãos. O homem mais poderoso da história do Brasil aceita marcar uma audiência no palácio. Joel vai ao presidente e dissimula seus objetivos até não poder mais. O diálogo da embromação, a conversa em círculos, é descrito em minúcias, delicioso jeito de descrever seu nervosismo. Até que o repórter dá o bote... e se frustra. Mas a frustração diante da recusa se torna apenas um elemento coadjuvante numa reportagem detalhada sobre aspectos pouco explorados da vida e do ambiente presidencial: suas roupas, roupas quase idênticas de seu irmão quase idêntico, seus trejeitos, a forma, o cuidado e até a temperatura da mão, o diálogo meio nonsense que iniciam a conversa e assim por diante. Abstraindo todas as diferenças, dimensões e motivos, o texto de Joel Silveira lembra o perfil que Gay Talese produziu a partir da frustração por não poder entrevistar Frank Sinatra (publicado em Fama e Anonimato, de 2004).
Outro recurso literário utilizado por Joel Silveira em seus textos é a metalinguagem. Apesar de tanto gosto que o leitor revele pelo trabalho do jornalista, o estilo noticioso clássico evita menções a si mesmo, a como é produzido. A entrevista tem que parecer como se tivesse sido transferida da boca do entrevistado diretamente para o papel. Tudo é lido como se não houvesse um fazer, o gravar, ouvir, datilografar (ou, agora, digitar), o escolher melhores trechos, o descarte dos demais e a edição. A notícia também parece ter ocorrido sob as barbas do jornalista e chega ao veículo como se fosse assim por natureza: nas perguntinhas clássicas que devem ser respondidas pela boa reportagem (o chamado lead, ou lide: "Quem? O quê? Quando? Onde? Como? Por quê?") não há uma que explique como os fatos foram "empacotados" até virar aquela notícia.
Joel põe o fazer do jornal na cena de suas reportagens. No alojamento que divide no front italiano com outras estrelas do jornalismo nacional, ficamos sabendo pelo texto que ele usa uma máquina de telex, na qual tem franquia para escrever quanto for necessário (apesar dos custos fabulosos da época), o que o ajuda a ganhar fontes, fazendo amigos entre os soldados, mandando mensagens para suas famílias que, de outra forma, pelo correio tradicional, em meio à guerra, levariam meses. Quando entrevista o general Góis Monteiro, antigo fiador do Estado Novo, o militar lhe determina:
- Vá escrevendo o que vou lhe dizer.
É um costume seu esse de ditar as entrevistas, expediente que adotou de tempos para cá. E ele explica por quê:
- Confiei demais na "memória" dos jornalistas, e sofri o diabo...
O repórter, então, para ter a entrevista, cumpre a ordem: "Coloco o papel na máquina portátil que levei comigo". E assim, o leitor vai acompanhando não só o que pensa(va) o general Góis Monteiro, mas também como isso foi dito, em que contexto, como passa a mão no cabelo, como envelhece ("Já perdi a saúde, o entusiasmo, a esperança e fé em muita gente"), mas não perdeu o estilo militar, imperativo: "Escreva".
Até mesmo as lacunas são descritas: "Ao reconstituir o fim da ditadura em todos os seus detalhes [...] o general Góis me faz um relatório completo do que realmente aconteceu na noite de 28 e na manhã de 29 de outubro de 1945. Mas quando faço menção de escrever à máquina o que ele me conta, vem a ameaça. Apontando-me a bengala, ele ordena: - Não, isto não é para publicar!". E apesar do anos passados, Joel interrompe a narrativa sem contar o que o general quis esconder.
Esses elementos heterodoxos da narrativa jornalística permitem uma visão inclusive da intimidade do jornalista ao investigar sua reportagem. É o caso da matéria sobre seu encontro com Juscelino Kubitschek, em julho de 1976, pouco antes de sua morte. O ex-presidente o leva "sacolejando num jipe" para conhecer sua fazenda em Luisiânia, nas imediações de Brasília. Joel, desacostumado, chega à casa principal arrasado pelo passeio.
Vendo-me assim, amarfanhado e derreado, Juscelino falou:
- Espere só um minuto que seu remédio já está vindo. O Adolpho [Bloch] me preveniu e já tomei as providências...
Naquele instante exato surgia na varanda um bem-posto garçom, todo de branco, trazendo numa bandeja de prata um balde de gelo, um copo de cristal e uma garrafa intacta de um soberbo uísque.
É esse Joel que se revela em suas reportagens, de tempos em tempos, como um Hitchcock do jornalismo, apresentando-se feito o diretor de cinema, fazendo pequenas pontas em suas obras.
É esse grande repórter, o autor deste livro, que abraça os protagonistas da história do Brasil, que narra os momentos épicos e seus bastidores prosaicos, que assiste a tudo e nos conta, ao mesmo tempo ensinando história, jornalismo e literatura, mostrando que afinal são três gatos no mesmo saco, lados do mesmo círculo.
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