*INTRODUÇÃO:
CRIME E CASTIGO
UMA LONGA HISTÓRIA


 

Devo a publicação destas reportagens a alguns amigos. Em primeiro lugar, a Marcos Sá Corrêa, então diretor de redação do Jornal do Brasil que, por sugestão de Flávio Pinheiro, editor-adjunto, teve a arriscada idéia de me mandar realizá-las em 1989, eu, que da Amazônia só conhecia o mapa. Em meio a um clima de apaixonada militância pela causa ambiental, ele acreditava que seria necessário um olhar menos engajado ou comprometido para dar conta do que se passava no Acre logo depois da morte de Chico Mendes.

Eu já tinha mais de trinta anos de carreira quando cheguei a Rio Branco, sem saber direito quem era aquele fascinante personagem. Só depois que ele morreu, aos 44 anos, é que o Brasil descobriu haver perdido o que custa tanto a produzir: um verdadeiro líder. À frente dos seringueiros que organizou, ele desenvolveu táticas pacíficas de resistência com as quais defendeu a Amazônia, que a partir dos anos 70 sofrera um acelerado processo de desmatamento para dar lugar a grandes pastagens de gado. Fazendeiros do Sul, com incentivos do governo militar, passaram a expulsar posseiros e índios para instalar seus rebanhos nas terras devastadas pelo fogo. Chico não só lutou contra a devastação como chamou a atenção do mundo para essa luta.

O New York Times já o havia considerado "um símbolo de todo o planeta", o Bird (Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento), o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) e o Congresso americano apoiavam sua causa, a ONU já o premiara com o Global 500, mas ele precisou ser assassinado no dia 22 de dezembro de 1988 para ser reconhecido em seu país como um herói trágico que anunciou a própria morte. Anunciou incansavelmente. Poucas vezes a polícia contou com uma lista de acusados - mandantes, executores, cúmplices - fornecida pela própria vítima. Por meio de cartas, artigos, entrevistas, Chico denunciou os suspeitos a todas as autoridades, incluindo o presidente da República. Foi uma morte mais do que anunciada. Ele anunciou até o prazo dentro do qual ela ocorreria. Disse que seria assassinado até o dia 30 de dezembro de 1988. Foi morto oito dias antes.
O poder e a fama que adquiriu lá fora apressaram seu fim. Suas idéias provocaram a reação violenta de latifundiários, madeireiros e dos grandes projetos agropecuários que viviam do desmatamento desordenado da Amazônia. Nos meses que antecederam sua morte e enquanto se fechava o cerco sobre ele, Chico escrevia, ia às redações, procurava políticos, falava, gritava. Era uma ação desesperada que impressiona até hoje. Só não impressionou as autoridades da época.

O meu segundo agradecimento vai para Luiz Schwarcz, que quase quinze anos depois resolveu transformar as reportagens em livro. Aliás, para ser justo, ele já queria publicá-las logo após terem saído em série no Jornal do Brasil. Eu é que quis dar tempo ao tempo. Temia que um assunto como esse, que mobilizou tantas paixões e repercutiu no mundo todo, pudesse ser daqueles que despertam interesse intenso mas passageiro, esgotando-se no calor da hora sem merecer a permanência de um livro.

Um outro Luiz, Fernando Vianna, ajudou a me convencer que valia a pena a publicação, dispondo-se a recolher e organizar o material. Bem mais jovem e, portanto, com distanciamento crítico, ele acabou se responsabilizando também pela tarefa de descobrir o destino de alguns personagens e elaborar notas explicativas de fatos e feitos esquecidos ou desconhecidos. A ele e aos que o ajudaram aqui e no Acre - Marta Ribas, Júlia Feitoza, Gomercindo Rodrigues e Djalcir Ferreira - o meu reconhecimento.

Com Mary, minha mulher, e com Elisa e Mauro, meus filhos, ela editora e ele jornalista, ficou a missão de comparar a distante aventura, a que deram tanto apoio, com o resultado em forma de livro. Pelo zelo no meticuloso trabalho de editoração, o meu agradecimento especial a Marta Garcia.

Obedecendo à orientação que Schwarcz e Matinas Suzuki Jr. imprimiram à coleção Jornalismo Literário, mantendo as reportagens tais como foram escritas na época, não introduzi alteração ou correção que afetassem o sentido do texto original - no máximo trocas de títulos, mudanças na ordem dos capítulos (no livro, a história começa com a morte de Chico, por sugestão do próprio Luiz) e pequenos acréscimos como as palavras "ministro" ou "presidente da República" antes ou depois de um nome.

O livro foi dividido em três partes: "O crime", que corresponde à primeira viagem que realizei ao Acre em 1989; "O castigo", que descreve as minhas segunda e terceira idas para o julgamento dos assassinos em 1990; e "Quinze anos depois", quando revisito lugares e personagens durante uma quarta viagem em outubro de 2003.

A experiência profissional e existencial que resultou nesta série de reportagens me ensinou muito do Brasil, do Acre e de como, até já velho, a gente aprende no jornalismo. Essa tensão de "foca" diante de cada desafio, esse estresse que, como o colesterol, pode ser bom, talvez constitua o grande segredo da profissão, que é um interminável exercício de aprendizado e descoberta. Não existe repórter pronto. Ele é um processo, uma construção, uma obra imperfeita, inacabada.

Com a série, que se chamou "O Acre de Chico Mendes", conquistei, além dos prêmios Esso de Jornalismo e Vladimir Herzog de Reportagem, um outro, o maior deles, que foi conhecer a riqueza de uma terra e o caráter de uma brava gente que Chico Mendes chamava cheio de orgulho de Povos da Floresta, que ele defendeu até a morte.

Z. V.