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A arte de contar boas histórias
Como o dry martini e a voz de Frank Sinatra, o jornalismo literário é uma das grandes instituições americanas que fizeram o século XX. Ele tem tanto prestígio nas estantes americanas que chegou a criar uma categoria própria, também chamada literatura de não-ficção, ensaio ou, como fizeram seus barulhentos autores nos anos 60, "novo jornalismo".
Embora a imprensa tenha sido sempre uma companheira de viagem da literatura, essa aproximação começou a ter regras e repertórios autônomos com o final da Segunda Guerra Mundial.
Considerado um terceiro gênero ou um gênero híbrido, o jornalismo literário passou a combinar o exercício intensivo de práticas jornalísticas de entrevistas e apuração de fatos com técnicas e estruturas das narrativas de ficção.
Um dos procedimentos mais importantes para os jornalistas literários é a "imersão no objeto ou personagem", o processo de mergulhar profundamente no tema sobre o qual se vai escrever.
O jornalismo literário ganhou um amplo público de leitores por meio de
publicações como The New Yorker (até hoje o seu principal templo), Esquire,
The New Republic e Rolling Stone, entre outras, e pelo texto de autores como
Norman Mailer, Truman Capote, Ernest Hemingway, Tom Wolfe, Gay Talese,
Joseph Mitchell, Lilian Ross e E. B. White, para citar apenas alguns nomes.
Hiroshima, de John Hersey, é considerado um dos marcos iniciais do
jornalismo literário. Com a sua publicação, tirando um atraso de mais de
cinco décadas, a Companhia das Letras, com apoio cultural do site de
notícias Último Segundo, inicia uma série que traz ao leitor brasileiro
outros clássicos do gênero, entre eles A sangue frio, de Truman Capote; O
segredo de Joe Gould, de Joseph Mitchell; Música para camaleões, de Truman
Capote; e Olhos na multidão, de Gay Talese.
O jornalismo literário retoma a idéia de que a "arte de contar boas
histórias" é parte essencial do jornalismo. No momento em que a imprensa,
por força das mudanças acentuadas da vida contemporânea, encontra-se em fase
de procura de novos caminhos, uma volta às grandes reportagens do jornalismo
literário poderá ser útil para se desenhar alguns novos modelos, principalmente para aqueles que acreditam que o futuro dos jornais e das revistas está na diferenciação pela qualidade (não só da informação e da análise, mas também do texto).
Quando o século XX estava para terminar e o mundo se dedicava a balanços do
que ocorreu de mais importante naqueles cem anos, uma unanimidade ocupou o
topo da lista de melhores reportagens: Hiroshima. Produzida um ano depois do
lançamento da primeira bomba atômica, a reportagem conta em 31.347 palavras
o que aconteceu com seis pessoas que sobreviveram à explosão que matou 100
mil, feriu seriamente o corpo de mais 100 mil e machucou a alma da
humanidade.
Nenhuma outra reportagem na história do jornalismo teve a
repercussão de Hiroshima. Ao comentar sua publicação, The New York Times
afirmou: "Quando esse artigo de revista aparecer em livro, os críticos dirão
que ele é um clássico. Mas ele é muito mais do que isso".
Aos 32 anos, em 1946 John Hersey já era um repórter internacional consagrado
quando os editores da The New Yorker o deslocaram da China ao Japão para
produzir a reportagem que marcaria a passagem do primeiro aniversário da
bomba.
Ele ficou no país vinte dias e levou mais seis semanas para escrever
o texto. Ao narrar os efeitos da bomba no cotidiano de cidadãos comuns de
Hiroshima, Hersey trouxe o impacto da explosão para o dia-a-dia do
americano, provocando uma reflexão da América sobre a sua própria conduta de
guerra.
O impacto do texto, simples e isento de emocionalismo, foi tanto que
Harold Ross, fundador, e William Shawn, editor, decidiram, pela única vez na
história, dedicar um número inteiro da The New Yorker para a reportagem de
John Hersey.
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