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A víbora está viva
Fernando Morais
O livro que você acaba de ler retrata o surgimento, no Brasil, do gênero jornalístico chamado de "grande reportagem" - depois rebatizado como "novo jornalismo", "jornalismo investigativo" e, como diz o título desta coleção, "jornalismo literário". É verdade que a primeira grande reportagem de que se tem notícia no Brasil é muito anterior - o monumental Os sertões, de Euclides da Cunha, publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo em 1902. Mas também é verdade que só no final dos anos 30 é que ela vai fazer parte do dia-a-dia dos grandes jornais. Um dos pioneiros do gênero, Joel Silveira defende a tese de que, mais do que uma opção da imprensa, a grande reportagem surge como válvula de escape à censura imposta pela ditadura do Estado Novo. Sem poder falar do que importava - a política - os jornais abriam espaço para a investigação de temas menos candentes.
Autoridade para falar sobre a ditadura Vargas não falta a Joel Silveira. Nove meses antes que ela fosse instaurada, numa tórrida manhã de fevereiro de 1937 o jovem sergipano de Lagarto chegava ao cais do porto do Rio de Janeiro a bordo do vapor Itagiba - que cinco anos depois seria posto a pique por submarinos alemães. Trazia no bolso duzentos mil-réis, dinheiro que dava para comer e dormir por um par de meses, e uma carta de apresentação para um político de seu estado que sequer o recebeu. Além do destinatário da carta, Joel só tinha uma referência na capital federal: um semanário que o pai assinava em Aracaju, chamado Dom Casmurro - em cuja porta resolveu bater. Saiu de lá empregado, e mais: seis meses depois, seu nome já aparecia no expediente como secretário de redação.
A mais importante publicação literário-jornalística do Brasil de então, Dom Casmurro tinha sido criado por Brício de Abreu e Álvaro Moreyra, e exibia entre seus colaboradores a fina flor da literatura e do jornalismo de então: Carlos Lacerda, Rachel de Queiroz, José Américo Almeida, José Lins do Rego, Oswald de Andrade, Cecília Meireles, Aníbal Machado, Astrojildo Pereira, Adalgisa Nery, Jorge Amado, Marques Rebelo, Graciliano Ramos, Murilo Miranda e Moacyr Werneck de Castro. Vendia 50 mil exemplares por semana, número surpreendente para um país com 30 milhões de habitantes e índices estratosféricos de analfabetismo. Uma briga interna faria com que Lacerda, seu primo Moacyr e Murilo Miranda deixassem o jornal para montar um concorrente, a Revista Acadêmica, para a qual arrastaram, entre outros, Rubem Braga, Lúcio Rangel e Arnaldo Pedroso d'Horta. O quadrilátero formado entre a Cinelândia e a rua do Ouvidor converteu-se no ponto chique da inteligência carioca: numa esquina ficava a redação do Dom Casmurro. Na outra, a Revista Acadêmica. Entre as duas repousava a editora José Olympio, a mais prestigiada de então.
No dia 10 de novembro Joel Silveira ouviu no rádio que Getulio Vargas tinha fechado o Congresso e adiado para as calendas gregas as eleições presidenciais previstas para o ano seguinte. Iam começar os tenebrosos oito anos da ditadura do Estado Novo. A rigorosa censura imposta à imprensa pelo novo regime proibia desde notícias políticas até mexericos sociais da família Vargas - como os escandalosos pileques que Benjamim "Bejo" Vargas, irmão caçula do presidente, tomava no Cassino da Urca. E era contra esse inimigo comum que, embora concorrentes, Dom Casmurro e a Revista Acadêmica costumavam se unir. Joel Silveira conta que Lacerda certa vez procurou-o com um plano mirabolante:
- Você escreve na Dom Casmurro um artigo arrasando o Portinari. Eu saio em defesa dele na Revista Acadêmica. Aberta a polêmica, vamos entrevistar todo mundo, driblando a censura.
O desconfiado Joel sabia como matar o assunto (e a proposta):
- Claro que topo, Carlos, acho sua idéia ótima. Só que nós vamos trocar: você esculhamba o Portinari e eu o defendo no Dom Casmurro.
Os dois voltariam a trabalhar juntos meses depois, convidados para compor a equipe de Diretrizes, o semanário lançado por Samuel Wainer em março de 1938. E foi em Diretrizes que Joel se converteu em uma estrela do jornalismo, com visibilidade nacional. Mais precisamente depois que ele publicou, no começo dos anos 40, a reportagem "Grã-finos em São Paulo", um irônico, debochado perfil do high-society paulistano. O texto fez brilhar os olhos de Assis Chateaubriand, dono dos Diários Associados. Naquela época, jornalista importante no Rio trabalhava em Diretrizes ou nos Associados. Em Diretrizes os baixos salários eram compensados pelo prazer de escrever em uma publicação moderna, dinâmica, inteligente e liberal, que se opunha ao situacionismo político em meio a um oceano de unanimidades pró-Estado Novo. Admirador confesso de Diretrizes, Chateaubriand quis saber quem era o autor da reportagem (na verdade Joel já publicara crônicas em O Cruzeiro) e pediu a Virgílio de Melo Franco que o convidasse para trabalhar em O Jornal. A oferta era tentadora, mas prevaleceu o idealismo de Silveira:
- Não vou, doutor Virgílio. Estou bem aqui e não quero trabalhar em uma empresa como os Associados, que não têm e nunca tiveram bandeira. Uma empresa que, ao contrário de Diretrizes, é a favor de tudo.
Um ano depois Joel é mandado a São Paulo para entrevistar Monteiro Lobato e volta para a redação com uma reportagem em que o escritor desancava o Estado Novo e reclamava a imediata redemocratização do país. Com o título "O governo deve sair do povo como a fumaça da fogueira'', retirado de uma frase do entrevistado, a matéria incendiou o meio político, e produziu trágicas conseqüências: Diretrizes foi fechada pelo governo, Samuel Wainer exilou-se nos Estados Unidos e Joel Silveira fugiu para sua cidade natal, Lagarto (onde, segundo ele, "nem Lampião nem o dip conseguiam entrar"). Ao saber que o sergipano estava desempregado, Chatô volta à carga com Virgílio de Melo Franco:
- Como o senhor vai fazer não me importa, doutor Virgílio, mas eu quero essa víbora aqui nos Associados.
Dias depois Virgílio apresentava-o a Chateaubriand:
- Doutor Assis, está aqui a víbora que o senhor quer contratar.
Ele levantou-se da mesa e cumprimentou Joel:
- Seu Silveira, o senhor é um dos homens mais perigosos deste país, tem que vir trabalhar conosco. Diga quanto é que o senhor quer ganhar e vá se entender com o doutor Lacerda lá embaixo, na Meridional.
O "doutor Lacerda" a quem ele se referia era Carlos Lacerda, que desde 1942 dirigia a agência de notícias dos Associados. Lá Joel iria se juntar a uma das mais brilhantes equipes já reunidas até então em uma empresa. Liderados por Lacerda, na Agência Meridional, e por Freddy Chateaubriand, sobrinho de Chatô, em O Cruzeiro, lá estavam David Nasser, Edmar Morel, Nelson Rodrigues, Lucio Cardoso, Rachel de Queiroz, Alex Viany, Gilberto Freyre, José Lins do Rego, Franklin de Oliveira e os irmãos Hélio e Millôr Fernandes.
A entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial converteu o dono dos Associados de ferrenho germanófilo em cruzado pró-Aliados. Eufórico com o envio de tropas brasileiras para lutar no conflito, Chatô decidiu que seus jornais teriam um correspondente de guerra na Europa. O primeiro nome em que ele pensou foi o do coronel Euclides Figueiredo, pai do general João Baptista Figueiredo (que viria a ser presidente da República durante a ditadura militar de 1964). Um dos líderes da Revolução Constitucionalista de 1932, Euclides fora condenado, logo após a implantação do Estado Novo, a quatro anos de prisão. Da cadeia enviava clandestinamente artigos que Chatô publicava com o pseudônimo de "Um observador militar". Um dia depois de libertado, Figueiredo recebeu em casa a visita de Chateaubriand, que vinha com um insólito convite:
- Euclides, vosmecê fala francês e alemão, não é? Então vai ser correspondente dos Associados no front russo.
Figueiredo aceitou, mas Getulio não. Quando soube da notícia, o ditador foi claro com Chateaubriand:
- Esse não pode. É meu inimigo.
Com o veto a Euclides Figueiredo, Chatô convidou Edmar Morel. Novo veto, desta vez do general Eurico Dutra, ministro da Guerra que viria a ser presidente da República, eleito em 1946, e que acusava o repórter de ser "ligado ao Partido Comunista". Quando o Catete sinalizou que o terceiro nome a ser apresentado pelo dono dos Associados - o de Joel Silveira - seria vetado pelas mesmas alegações feitas contra Morel, Chateaubriand perdeu a paciência, mandou Silveira tirar as medidas para fazer a farda e arrancou pessoalmente de Getulio a autorização para que o repórter embarcasse para a Itália junto com a Força Expedicionária Brasileira. (Getulio confessou a Chatô que, sem conhecê-lo pessoalmente, tinha simpatias pelo autor da desaforada reportagem sobre os ricos paulistas publicada em Diretrizes.) Ao despedir-se dele, o patrão exultava:
- O senhor vai para a guerra, mas não me morra, seu Silveira! Não me morra! Repórter é para mandar notícia, não é para morrer!
Ao chegar à Europa, Joel tinha 26 anos e era o mais jovem de todos os correspondentes estrangeiros. Já chegou criticando o fardamento dos soldados (e dos jornalistas), e escreveu que o Exército dera roupas para "o frio de Friburgo" a uma tropa que enfrentava um inverno glacial, com temperaturas de até vinte graus negativos. Foi nesse período que apareceu pela região de Porreta-Terme, onde estavam as tropas da FEB, uma celebridade do jornalismo mundial - ninguém menos que o escritor americano Ernest Hemingway, vindo da Normandia e a caminho da Iugoslávia. Joel conta que nas duas semanas em que esteve por lá, o autor de Por quem os sinos dobram se encantou com o jogo "escravos de Jó", com que o correspondente gaúcho Egidio Squeff se distraía na porta da barraca. Por mais que tentasse, porém, Hemingway jamais conseguiu aprender a jogar. "Quando ele se aproximava de nós o Squeff resmungava", recorda-se Joel. "Ele dizia: lá vem o Hemingway, que, além de chato, é burro. Como é que alguém não consegue aprender a jogar uma bobagem dessas?"
Joel passou dez meses no front italiano, e seu retorno ao Brasil coincidiu com uma das muitas guerras santas que Chateaubriand costumava declarar a seus desafetos. Desta vez a vítima era o conde Francisco Matarazzo Jr., o "conde Chiquinho", que cometera a ousadia de pedir de volta a Chatô o prédio que os Associados ocupavam no viaduto do Chá, em São Paulo, de propriedade do industrial. Chateaubriand explodiu quando soube que, pra enfrentá-lo de igual para igual, o conde estava adquirindo o controle do grupo Folha (que editava os jornais Folha de S.Paulo, Folha da Manhã e Folha da Noite). Em meio à saraivada de reportagens e artigos que escrevia ou mandava escrever contra os Matarazzo, Chatô soube que o conde preparava aquilo que os colunistas sociais já anteviam como "a festa do século": o casamento de sua filha Filly com o jovem milionário carioca João Lage. O primeiro nome que lhe veio à cabeça para escrever sobre assunto foi, obviamente, o de Joel Silveira, a víbora - que, no caso, contava com trunfos adicionais: além das fontes infiltradas na alta sociedade, que o haviam ajudado a bisbilhotar a vida dos ricos paulistas para fazer "Grã-finos em São Paulo" (entre as quais, ele revelaria depois, estava o pintor Di Cavalcanti), Joel conhecera o noivo quando este servia como pracinha da Força Expedicionária Brasileira no norte da Itália. Estava nascendo A milésima segunda noite da avenida Paulista.
Uma casualidade haveria de tornar ainda maior o estrago feito pela reportagem de Joel na imagem pública da família Matarazzo. Ele acabava de datilografar as últimas laudas do seu trabalho quando uma humilde senhora entrou na redação com um pedido:
- Leio todos os dias notícias do casamento da filha do conde, e pensei que os senhores poderiam publicar uma notinha qualquer sobre o casamento da minha filha, que se realiza hoje.
Maurício Loureiro Gama, o repórter que a recebeu, saiu aos berros pela redação:
- Joel! Olha só a maravilha que me apareceu aqui: uma operária vai se casar hoje com um torneiro-mecânico, e os dois trabalham na fábrica do Matarazzo!
O bairro de São Miguel Paulista, na miserável zona Leste de São Paulo, jamais veria tantos fotógrafos e repórteres quanto no dia do casamento dos operários Nadir Ramos e José Tedeschi. Ao ser informado, no Rio, da descoberta do casamento dos empregados de Matarazzo, Chateaubriand telefonou para São Paulo dando ordens:
- Temos que dar para o casamento dos operários o mesmo espaço que dermos para o casamento da filha do conde! Se as bodas de dona Filly receberem duas páginas, quero duas páginas para os operários!
No dia seguinte o Diário da Noite estampava duas páginas inteiras, face a face: na da esquerda, o fausto da milésima segunda noite de Filly e João Lage. Na da direita, o casamento de Nadir e José em São Miguel. A víbora, naturalmente, não deixaria de chamar a atenção dos leitores para o fato de que a orgia de gastos da página esquerda tinha sido paga com o trabalho dos noivos da página direita.
Mais de meio século depois da festança, Joel Silveira parece continuar a mesma víbora de antes. Até alguns anos atrás, ele costumava responder a quem lhe perguntasse:
- Mudar? Eu não mudei nada nesse tempo. Só engordei.
Às vésperas de completar 85 anos, a balança já não permite que continue repetindo a resposta. Das "dez arrobas" de então, como ele diz, Joel baixou para cem quilos de peso, resultado de prescrições médicas e do fim de um velho hábito, o santo uísque de cada dia. "Detesto beber sozinho", lamenta, "e como quase todos meus amigos já morreram, prefiro não beber nada." Emagreceu, ficou mais solitário, virou abstêmio, mas não deixou a víbora morrer. Quando menos se espera, Joel ressurge cheio de fúria, espalhando veneno a torto e a direito.
Foi assim dois anos atrás, quando a escritora Zélia Gattai decidiu pleitear a vaga aberta na Academia Brasileira de Letras pela morte de seu marido, Jorge Amado. A candidatura reabriu velhas feridas da esquerda, e Joel resolveu entrar na disputa, mesmo sabendo que ia perder. "Estou concorrendo para impedir que essa senhora seja eleita por unanimidade", espinafrou. Ele lembrava que a história da abl só conhecia duas escolhas unânimes, a de Getulio Vargas ("que era um ditador, todo mundo votou nele para não ser preso"), e Assis Chateaubriand ("que não era ditador, mas de quem todo mundo também morria de medo"). Joel insistia em que Zélia não era "ditadora e nem escritora", e que, portanto, não merecia entrar para a ABL - e menos ainda ser escolhida por unanimidade. "Esta é uma anticandidatura, sei que serei esmagado", gargalhava aos repórteres que o procuravam. "Vai ser a minha Armada Brancaleone contra a Wehrmacht da Zélia". Foi mesmo: Zélia recebeu 32 votos, contra apenas quatro dados a Joel. Para ele, estava ótimo: "Só me candidatei para isso: para tirar quatro votos da Zélia".
Da velha víbora restou não apenas o veneno, mas a mesma disposição para o trabalho de cinqüenta, sessenta anos atrás. Joel continua escrevendo. Depois de passar três anos publicando crônicas semanais em um jornal mineiro (cujas portas a crise acaba de fechar), ele hoje escreve um texto mensal para a sofisticada revista Continente, editada há alguns anos por um grupo de jornalistas e intelectuais pernambucanos. Mas nunca perde de vista a velha paixão, a grande reportagem. É curioso ler as respostas que ele costuma dar, pacientemente, à pergunta-clichê que lhe fazem quase todos os entrevistadores: que reportagem você gostaria de fazer hoje? Há cinco anos seu sonho era cobrir a guerra do Kosovo. Tempos depois o assunto era outro, e outra era a resposta: "Gostaria de escrever um perfil dessa moça, a Monica Lewinsky". Se alguém repetir a pergunta hoje, Joel terá a resposta na ponta da língua: "Gostaria de fazer uma grande reportagem sobre a violência do Rio de Janeiro". Como há meio século, a víbora continua gostando mesmo é de encrenca.
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