Leia abaixo trechos de O Segredo de Joe Gould, de Joseph Mitchell
Mitchell descreve Gould
Gould era um exemplo perfeito do tipo de excêntrico comum em Nova York, o notívago solitário, e era esse traço dele que mais me interessava - esse traço e a História Oral -, não sua boemia; eu havia entrevistado vários boêmios do Greenwich Village e os achara surpreendentemente enfadonhos.
Ele era a criança catarrenta; era o filho que sabe que desapontou o pai; era o tampinha, o nanico, o metro-e-meio, o meio-quilo; era Joe Gould, o poeta; era Joe Gould, o historiador; era Joe Gould, o selvagem dançarino Chippewa; era Joe Gould, a maior autoridade mundial na língua das gaivotas; era o proscrito; era o exemplar perfeito do notívago; era o ratinho; era o único membro do Partido Joe Gould [...]
Gould parecia um vagabundo e vivia como um vagabundo. [...] Era disparatado, arrogante, intrometido, mexeriqueiro, caçoísta, sarcástico e grosseiro.
Gould não é, de forma alguma, um vagabundo. Acredita que a diversão que proporciona vale o que consegue filar. Não bajula ninguém e não agradece. Se o afastam polidamente, dá de ombros e vai embora. No entanto, se alguém faz algum comentário do tipo "Fora daqui, vagabundo", volta-se para o ofensor e, sem se importar com seu tamanho, passa-lhe uma descompostura chula numa voz esganiçada e fanhosa. E não mede as palavras.
Joe Gould é um homenzinho alegre e macilento, conhecido em todas as lanchonetes, tabernas e botecos imundos do Greenwich Village há um quarto de século. Às vezes ele se gaba de ser o último dos boêmios. "Os outros caíram fora", explica. "Uns estão na cova, outros no hospício e alguns no ramo publicitário".
Mitchell versus Gould
Percebi também que não havia como negar o fato de que, quanto mais ele [Gould] falasse comigo, mais eu saberia de seu passado, e quanto mais eu soubesse de seu passado, mais importante se tornaria, para ele, falar comigo. Isso me assustou e decidi me livrar dele, se necessário transferindo o fardo para outra pessoa o mais depressa possível.
Gould e a História Oral
De repente me ocorreu a idéia da História Oral: eu passaria o resto da vida percorrendo a cidade e ouvindo as pessoas - bisbilhotando, se necessário - e anotando tudo que me parecesse revelador, por mais enfadonho, idiota, vulgar ou obsceno que os outros pudessem achar.
A História Oral tem sido minha corda e minha forca, minha cama e minha comida, minha esposa e minha puta, minha ferida e o sal em cima dela, meu uísque e minha aspirina, minha rocha e minha salvação. É a única coisa que tem algum valor para mim. O resto é lixo.
No futuro pode ser que as pessoas leiam a História Oral de Gould para ver o que fizemos de errado, da mesma forma que lemos Declínio e Queda, de Gibbon, para ver o que os romanos fizeram de errado.
Mitchell: Gould se pôs a descrever a História Oral e logo estava se comparando a Gibbon - discursando sobre o que chamava de sua "afortunada proximidade" em relação a Nova York e o que chamava de "a desafortunada distância" de Gibbon em relação ao Império Romano.
Gould, sobre o Greenwich Village, bairro boêmio de Nova York
Lembro-me de ter dito que a parte da História Oral relativa ao Greenwich Village se intitula "Uma infinidade de disparates". [...] Depois de muito pensar, decidi mudar esse título e achei que devia lhe comunicar tal decisão imediatamente. O novo título é "O hospício sem grades, ou Descidas diurnas e descidas noturnas ao submundo intelectual de nossa época".
A dieta de Gould
Sou a maior autoridade dos Estados Unidos em privação", garante Gould. "Vivo de ar, auto-estima, guimba de cigarro, café de caubói, sanduíche de ovo frito e catchup".
Nesse instante a garçonete colocou diante de Gould um prato de ovos fritos com torradas e mais uma caneca de café. Assim que ela virou as costas, Gould pegou um vidro de catchup que estava pela metade e esvaziou-o no prato, despejando seu conteúdo em torno dos ovos. Depois correu até a mesa vizinha e pegou outro vidro, que tinha, talvez, um terço de catchup, e também o esvaziou no prato, cobrindo completamente os ovos e as torradas. "Eu nem gosto muito desse troço, mas tenho o costume de comer tudo que me aparece", disse. "Esse é o único grude grátis que eu conheço".
Gould, sobre a sanidade
Eu consideraria o mais são dos homens aquele que melhor compreende o trágico isolamento da humanidade e prossegue calmamente na busca de seus propósitos essenciais. Acho que penso dessa forma porque sofro de delírio de grandeza. Acho que sou Joe Gould.
Mitchell e o segredo de Gould
Fiquei revoltado. Eu estava me esforçando para não desmascará-lo, e ele estava se esforçando ao máximo para se desmascarar. "Pelo amor de Deus", tive ganas de gritar. "Não vá afrouxar agora e se desmanchar em confissões e confidências. Se fingiu durante tanto tempo, a única coisa decente que lhe resta é continuar fingindo até morrer, não importa o que aconteça". Em vez disso, falei: "Desculpe-me, por favor, mas agora você precisa realmente me dar licença. Está ficando tarde, e tenho umas coisas a fazer".
Gould sobre Gould
Não faz muito tempo, procurando um termo no dicionário, encontrei uma palavra que resume meu modo de ser [...]: 'ambissinistro', canhoto das duas mãos.