O anti-cascateiro

Flávio Pinheiro, editor do site no minimo (www.nominimo.com.br)


Cascateiro, define o Dicionário Houaiss, é o indivíduo que cascateia, que mente ou conta vantagens. Redações de jornais e revistas já trataram cascateiros com brandura. Alguns eram, de fato, encantadores. Inconformados com a realidade, a floreavam, adjetivavam a banalidade que os incomodava. Desconcertavam com sua desinibição um jornalismo ainda estreito, bitolado por formalidades.

Os tempos mudaram, mas uma coisa não: o limite entre os pecados veniais dos cascateiros e crimes contra fé pública de farsantes vulgares ficou mais tênue. Os cascateiros, é bem verdade, passaram a escassear, mas não sumiram. Está aí Jayson Blair, que fabricou entrevistas, inventou pradaria onde só existia maçante paisagem suburbana, surrupiou informações dos outros e acabou detonando a cúpula do New York Times, cúmplice de sua cascata de fraudes.

Parece heresia mencionar cascateiros para falar de Joseph Mitchell, príncipe do jornalismo literário, o que o inscreve ao mesmo tempo na galeria dos melhores jornalistas e dos melhores escritores americanos do século XX. A partir da década de 30, e sempre na revista New Yorker, Mitchell devotou seus fabulosos dotes para descrever espeluncas - bares infectos, hotéis decadentes, salões de bilhar decrépitos - e perfilar farto elenco de anônimos - ciganos, bilheteiras de cinema, índios, mulheres barbadas, criadores de baratas. E literatos maltrapilhos ou vagabundos filósofos como Joseph Ferdinand Gould, de "O segredo de Joe Gould", sua obra-prima.

Há terreno mais propício para a cascata? Como distinguir lendas urbanas de sofridos e divertidos relatos vindos das entranhas de uma gigantesca metrópole como Nova York? É mais fácil checar se Gregory Lynch alguma vez dirigiu a palavra a Jayson Blair, ou mesmo saber se o resgate rocambolesco de sua filha, a soldado Jessica, no Iraque, aconteceu mesmo ou foi cascata infame produzida por patriotada militar. Quem iria atrás de Jane Barnell, a Lady Olga, ou Madame Olga, para conferir o hirsuto fenômeno que fez dela atração de picadeiros como mulher barbada? Kevin Kerrane e Ben Yagoda escolheram Lady Olga, retratada por Mitchell em 1940, para "The Art of Fact", antologia de jornalismo literário que organizaram em 1997.

O que cascateiros e outros facínoras mais perigosos fazem com fantasias, mentiras e pendor criminoso para a fabulação, Mitchell fez com rigor maníaco. Por casualidade, Mitchell conheceu Joe Gould, "boêmio residente" em vários bares nova-iorquinos. Gould definia-se como "a maior autoridade dos Estados Unidos em privação". "Vivo de ar, auto-estima, guimba de cigarro, café de caubói, sanduíche de ovo frito e catchup". Despejava em tudo, sopas inclusive, vidros inteiros de catchup. Esqueceu de mencionar piolhos. Não tinha um dente na boca.

O fascínio do personagem estava nos calhamaços de papel que sobraçava. Neles, dizia, escreveu 9 milhões de palavras para contar "Uma História Oral da Nossa Época", ciclópica compilação de conversa fiada com gente anônima, invisível para a História. Depois de ler os primeiros cadernos, Mitchell concluiu que toda aquela maluquice era escrita "com grande franqueza, chegando a um elevado grau de obscenidade". Mais tarde acrescentou: "seu jeito de escrever se parecia muito com seu jeito de falar: meio rígido e empolado e, em geral, um tanto insípido". Mitchell não é nem edificante nem compassivo demais com a doída e engraçada mendicância de Gould. Coisa rara quando se trata de personagens do gênero.

Gould é especialíssimo. Raro. Lembra os beberrões embotados de álcool, mas de consciência crítica acesa, como o que pontua a peça "Pequenos Burgueses" de Máximo Gorki. Onde mais se poderia achar um mendigo graduado em Harvard em 1911, "magna cum difficultate", como ele mesmo brincava. Filho e neto de médicos da vetusta Boston, Gould decidiu muito cedo ser "gauche" na vida". Em seu jorro narrativo, em que digressões emendavam com digressões até nublar o fio da meada, Gould tinha muitos lampejos de inteligência e lucidez.

Mitchell ouviu-o com imensa paciência. Peregrinou com Gould por bares, night clubs, fraternidades de poetas. E publicou em 1942 "O Professor Gaivota". Sim, Gould também se dizia "a maior autoridade mundial na língua viva das gaivotas". Em 1964, 22 anos depois, Mitchell escreveu "O Segredo de Joe Gould". Gould já tinha morrido. Em 1957, com 68 anos, uma arteriosclerose o matara.

Há muitas lições de jornalismo nas duas reportagens literárias. Principalmente na segunda, quando Mitchell não briga com os fatos para desvendar o segredo de Gould. A "História Oral...", que encantou Ezra Pound, sem que ele lesse uma linha, a poeta Marianne Moore, que publicou trechos em Dial, revista sob sua direção, e William Saroyan, simpatizante da idéia, não era exatamente o que Mitchell achou que era.

Tudo o que pôde ser checado, foi checado. A história da família Gould, em arquivos de Boston. Facetas de sua personalidade, com amigos, companheiros de copo e de cruz, colaboradores regulares do Fundo Joe Gould, pretexto para arrecadar esmolas. A história foi decantada em meses de apuração. Mitchell era lento e fez da lentidão virtude. É pioneiro do gênero que prova que o jornalismo não precisava ser feito com repertório vocabular de 500 palavras para ser objetivo e explanatório, remando contra a maré da voga da imprensa industrial. Mas não desperdiçava palavras. Só falou de personagens que por alguma razão admirava, mas não açucarou seus perfis com elegias.

Diz-se que só fez este jornalismo porque trabalhava na revista New Yorker. Certíssimo. (Para conhecer melhor a New Yorker e o caráter de Mitchell é absolutamente recomendável a leitura do posfácio que João Moreira Salles escreveu para edição brasileira de "O Segredo de Joe Gould").

A New Yorker é uma publicação única. Revista semanal, já nasceu sem o mais vago compromisso com as manchetes da semana. Vertebrar os fatos era tarefa da Time. Depois de uma época de esplendor, as revistas semanais de informação parecem ter perdido a receita. Estagnaram em grandes tiragens. Trocaram "formadores de opinião" por multidões sem opinião formada, que compram revistas para conhecer métodos infalíveis de eliminação de cupins, dietas da moda, segredos da eterna juventude. Querem ser mais úteis que inteligentes. Bulas acríticas da vida moderna. Com títulos arregalados e textos curtos.

Do outro lado, está a New Yorker. Não é mais a mesma. Mas preserva algumas virtudes que lhe deram caráter. Preza a lentidão das demoradas apurações, o texto copioso e assuntos fora da pauta. Em jargão jornalístico, pauta define assuntos que merecem investimento de tempo e neurônios. Na paisagem atual do jornalismo brasileiro refere-se a um território francamente dominado pela miséria da imaginação. Um passivo livro de ocorrências enche muito papel com fatos obrigatórios. Fica tudo monotonamente parecido. As notícias enguiçam. Patinam no mesmo lugar como taxas de juros.

A New Yorker não fazia pautas. Os jornalistas se pautavam. Traziam para a revista as histórias incomuns que farejavam. Joseph Mitchell se pautava como poucos. Assim descobriu Joe Gould, Lady Olga, tanta gente. Tratá-lo como anacronismo da imprensa, jornalista datado, é grave equívoco. Por trafegar à margem das manchetes, Mitchell devia ser lido e estudado como um antídoto contra cascata. Nele, a fidelidade à realidade é façanha maior ainda.

Clique para comprar o livro na Livraria Cultura ou no Submarino

Compre "Hiroshima" e "O Segredo de Joe Gould" a um preço especial no programa Mais da Livraria Cultura. Clique aqui.