O Segredo de Joe Gould é bem mais que uma reportagem. Não apenas pela qualidade do texto, a capacidade de escutar e a paciência do repórter Joseph Mitchell, mas também pela relação que se estabeleceu entre entrevistador e entrevistado.
Mitchell se interessou por Joe Gould por duas razões: por este ser um notívago solitário e também por ser autor da História Oral, obra à qual Gould dedicou muitos anos de sua vida, percorrendo a cidade de Nova York, ouvindo as pessoas e anotando tudo que lhe parecesse interessante.
O fato é que Joe Gould deve a Mitchell (e não à História Oral) sua tão almejada passagem para a eternidade. De certa forma, Mitchell também deve algo a Gould. Afinal, depois de ter escrito o segundo texto sobre o boêmio, em 1964, Mitchell passou décadas sem escrever mais nada. Aliás, ele nunca deixou claro o motivo de seu longo silêncio. Este é um dos temas desenvolvidos por João Moreira Salles no posfácio da obra.
Mitchell tinha percepção do que representava para Gould. Como ele mesmo afirma em seu segundo texto: "Percebi que, por saber tanto de seu passado, eu acabara me tornando parte de seu passado. Conversar comigo lhe permitia recuperar seu passado, permitia-lhe mantê-lo vivo".
O repórter manteve o segredo de Joe Gould por muitos anos e só o revelou sete anos após a morte de Gould. Um segredo que por muitos momentos ele se arrependeu de ter descoberto e que virou tabu entre ambos: nunca discutiram a fundo a questão, pois Mitchell percebeu que o segredo era a própria vida de Gould.
Não revelaremos o segredo de Joe Gould por amizade ao leitor. No entanto, para aguçar ainda mais a curiosidade pela leitura da obra, acrescentamos que depois que Mitchell revela o segredo de Gould, passa a revelar alguns de seus próprios segredos e a perceber suas próprias e insuspeitas semelhanças com o boêmio, mendigo, excêntrico e interessantíssimo Joe Gould.
Novamente nas palavras de Mitchell: "O Excêntrico Autor de um Grande Livro Misterioso e Inédito - essa era sua máscara. Escondido atrás dela, criara um personagem muito mais complexo, a meu ver, do que a maioria dos personagens criados pelos romancistas e dramaturgos de sua época".
A vida (e, quem sabe, o jornalismo) supera a ficção. No entanto, nunca é demais lembrar que o repórter teve todo o tempo de que necessitou para escrever sua matéria. Eram tempos em que era possível praticar o jornalismo literário, hoje devidamente ultrapassado pelo jornalismo em tempo real. Tempo real no qual um personagem como Joe Gould talvez só pudesse existir na ficção
Leia mais sobre Joe Gould e a História Oral nos trechos selecionados.
Leia um belo perfil de Joseph Mitchell, escrito pelo cineasta João Moreira Salles. O texto é o posfácio da edição brasileira.
Leia a resenha da obra, escrita pelo jornalista Flávio Pinheiro.