Leia abaixo trechos de Hiroshima, de John Hersey

Trecho

A noite estava quente e o calor parecia ainda mais intenso por causa dos incêndios, porém uma das meninas que os religiosos resgataram se queixou de frio. O padre Kleinsorge a cobriu com sua túnica. Com várias partes do corpo em carne-viva, conseqüência de enormes queimaduras produzidas pela radiação térmica da explosão -, a menina ficara horas dentro do rio, com sua irmã mais velha, e a água salgada do Kyo seguramente lhe causara uma dor excruciante. Ela se pôs a tremer e novamente se queixou de frio. O padre Kleinsorge pediu um cobertor emprestado e a agasalhou, porém ela tiritava cada vez mais. "Estou com muito frio", disse. De repente parou de tremer e morreu.

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Essa foi a primeira oportunidade que a srta. Sasaki teve de contemplar os escombros da cidade, já que, quando percorrera as ruas de Hiroshima pela última vez, divagava no limite da inconsciência. Embora tivesse ouvido descrições do desastre e ainda sentisse dor, horrorizou-se e surpreendeu-se com o que viu, e uma coisa em especial provocou-lhe arrepios. Por toda parte - sobre os destroços, nas sarjetas, nas margens dos rios, entre as telhas e as chapas de zinco dos telhados, nos troncos carbonizados das árvores - estendia-se um tapete verde, viscoso, otimista, que brotava até mesmo dos alicerces das casas em ruínas. O capim já escondia as cinzas, e flores silvestres despontavam em meio ao esqueleto da cidade. A bomba não só deixava intactos os órgãos subterrâneos das plantas, como os estimulara. Por toda parte havia centáureas, iúcas, quenopódios, ipoméias, hemerocales, beldroegas, carrapichos, gergelim, capim e camomila. Principalmente num círculo do centro o sene vicejava numa extraordinária regeneração, não só entre os restos crestados da mesma planta, como em outros pontos, em meio aos tijolos e através das fendas do asfalto. Parecia que o mesmo avião que jogara a bomba soltara também uma carga de sementes de sene.

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No parque a sra. Murata manteve o padre Kleinsorge acordado a noite inteira, falando sem parar. Os Nakamura também não pregaram olhos; apesar de muito doentes, as crianças estavam interessadas em tudo que ocorria. Empolgaram-se quando um dos reservatórios de gás da cidade explodiu. Toshio, o menino, chamou a atenção dos outros para o reflexo das labaredas na água. Depois de muitas horas de trabalho resgatando vítimas, o sr. Tanimoto cochilou. Quando despertou, à primeira claridade da manhã, olhou para o outro lado do rio e constatou que, na véspera, não havia colocado os feridos e mutilados num local bastante alto. A maré subira até onde os deixara, e os infelizes não tiveram forças para se mover; certamente se afogaram. Muitos cadáveres boiavam no Kyo.

Trecho

Depois de passar cinco dias assistindo aos feridos do parque, em 11 de agosto o sr. Tanimoto retornou a seu presbitério e escavou as ruínas. Resgatou alguns diários e registros paroquiais, que estavam queimados só nas bordas, bem como alguns utensílios de cozinha e peças de louça. Enquanto trabalhava, a srta. Tanaka se aproximou e comunicou-lhe que seu pai queria vê-lo.

O sr. Tanimoto tinha motivo para odiar esse homem, o oficial reformado da companhia de navegação, que embora praticasse a caridade ostensivamente, era egoísta e cruel e dias antes denunciara o reverendo a diversas pessoas como um espião a serviço dos americanos. Várias vezes caçoara do cristianismo, que classificava de não-japonês.

No momento da explosão caminhava pela rua, em frente à estação de rádio local, e, apesar de sofrer graves queimaduras produzidas pela radiação térmica, conseguira voltar para casa. Refugiou-se no abrigo da associação do bairro e mandou chamar um médico.

Esperava que todos os médicos de Hiroshima fossem acudi-lo, por ser tão rico e famoso por suas doações em dinheiro. Nenhum deles apareceu, e o sr. Tanaka resolveu procurá-los; apoiando-se no braço da filha, arrastou-se de um hospital a outro, mas, como todos estavam em ruínas, retornou ao abrigo e se deitou. Agora se sentia muito fraco e sabia que ia morrer. Queria receber o conforto de alguma religião.

O sr. Tanimoto foi confortá-lo. Entrou no abrigo, que mais parecia um túmulo e, quando sua vista se acostumou com a penumbra, viu o sr. Tanaka, o rosto e os braços intumescidos e cobertos de pus e sangue, os olhos fechados pelo inchaço. O velho cheirava muito mal e gemia sem parar. Aparentemente reconheceu a voz do pastor.

De pé na escada, onde havia alguma claridade, o sr. Tanimoto leu um trecho de sua Bíblia de bolso, em japonês: "Pois mil anos são aos teus olhos como o dia de ontem que passou, uma vigília dentro da noite! Tu inundas os filhos dos homens com sono, eles são como erva que brota de manhã: de manhã ela germina e brota, de tarde ela murcha e seca. Sim, por tua ira nós somos consumidos, ficamos transtornados pelo teu furor. Colocaste nossas faltas à tua frente, nosso segredos sob a luz da tua face. Nossos dias todos passam sob tua cólera, como um suspiro consumimos nossos anos [...]"

O sr. Tanaka faleceu enquanto o sr. Tanimoto lia o salmo.

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