Quem já leu o relato de sobreviventes do Holocausto pode pensar que já conhece tudo em matéria de horror. Engano. O horror pode assumir formas bem diversas, mas igualmente terríveis.

O jornalista norte-americano John Hersey fez em 1946 uma reportagem sobre os efeitos da bomba atômica lançada em Hiroshima. Publicado na revista The New Yorker, o texto relata o destino de seis sobreviventes do ataque, em linguagem jornalística sucinta e sem que o autor jamais externe qualquer opinião.

A reportagem é considerada por muitos a mais importante de todos os tempos. Com o título Hiroshima, ela está sendo editada no Brasil pela Companhia das Letras, como primeiro volume da série Jornalismo Literário, lançada com o apoio cultural do site de notícias Último Segundo.

Você está em Hiroshima, 6 de agosto de 1945, passa das oito e quinze da manhã. Teve a sorte (ou o azar) de sobreviver. Pelas ruas, ou o que restou delas, você vê milhares de moribundos, com ferimentos, fraqueza, queimaduras, efeitos de curto prazo da radiação (os de longo prazo tardarão, mas não falharão). O que segue abaixo foi extraído do livro.

Dos 245 mil habitantes, cerca de cem mil morreram ou morreriam em breve; outros cem mil estavam feridos. Em alguns corpos despidos as queimaduras acompanhavam o contorno das camisetas e, na pele das mulheres, o das flores dos quimonos (o branco repelira o calor da bomba, enquanto as roupas escuras o tinham absorvido e conduzido para a pele).

O Dr. Fuji, logo após a explosão, ficou prensado entre duas vigas de seu hospital, como um sushi entre dois hashis imensos. O hospital havia desabado dentro de um rio e o nível da água começava a subir. Seus óculos sumiram.

O padre jesuíta alemão Wilhelm Kleinsorge estava lendo, de costas para a janela, e não recebeu diretamente em seus olhos o clarão da explosão. Todos os edifícios ao redor daquele onde ele estava desmoronaram. Sua governanta gritava sem cessar: "Shu Jesusu, awaremi tamai! Nosso Senhor Jesus, tenha piedade de nós!".

Para Kleinsorge, um ocidental, o silêncio perto do rio, onde centenas de feridos sofriam juntos, foi um dos fatos mais terríveis e espantosos de toda a sua vida. Ninguém chorava e muito menos gritava de dor.

A senhorita Sasaki teve a perna quebrada por uma estante de livros. Durante dois dias e duas noites ela não ingeriu alimento nem água. A perna ficou sem cor, inchada e pútrida. Ela jamais voltaria a andar normalmente.

O reverendo Tanimoto carregava um carrinho de mão, quando um imenso clarão cortou o céu. Ele se jogou no chão e agarrou-se a uma pedra. Não ouviu nenhum barulho. Aliás, praticamente ninguém em Hiroshima se lembra de ter ouvido qualquer barulho.

O Dr. Sasaki foi um dos poucos médicos que não teve ferimentos graves e atendeu milhares de pessoas após a explosão. Por três dias seguidos teve apenas uma hora de sono. Os feridos eram tantos que ele resolveu deixar de lado os casos de menor gravidade; tudo que podia fazer era impedir que os infelizes se esvaíssem em sangue até morrer.

Logo após o clarão a viúva Nakamura tentou dar um passo, mas alguma coisa a levantou e a fez voar até o cômodo contíguo, em meio a partes de sua casa. Tudo escureceu. Ela conseguiu levantar e foi procurar seus três filhos sob os escombros.

Todas as pessoas citadas acima sobreviveram à bomba e seus destinos se entrelaçaram. Hersey conta a história delas desde o momento da explosão até cerca de um ano depois. A incompreensão do que havia acontecido, as várias teorias sobre a arma desconhecida (uma delas: "Os americanos estão jogando gasolina! Vão atear fogo em nós!"), a reação das crianças, o sentimento dos japoneses em relação aos americanos, a saúde precária dos sobreviventes.

O capítulo final do livro foi escrito quarenta anos após a explosão, quando a bomba já era uma lembrança distante, tanto para alguns dos sobreviventes, como para o resto do mundo.

Em Jornalismo com H, texto que é posfácio da obra editada pela Companhia das Letras, Matinas Suzuki Jr. conta a história da reportagem de Hersey, a forma especial como a revista The New Yorker a editou, a trajetória do repórter. Mostra também a reação que a reportagem suscitou na época de sua publicação e discorre sobre a origem e o desenvolvimento do jornalismo literário, que produz reportagens mais elaboradas, misturando a forma ficcional com o conteúdo jornalístico.

A importância de Hiroshima na história do jornalismo também foi ressaltada pelos jornalistas Humberto Werneck e Ruy Castro.

 

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