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Por Anna Veronica Mautner
De muitas maneiras li o que Chico conta em "Budapeste" e titubeio diante da tentação de resumir
tudo em uma só idéia. Estranheza. Sentir-se descon-fortável em sua própria pele, não importa onde
e como. No afã de comunicar esta sensação, ele conta muitas histórias que eu li mergulhando,
devagar, nesta sensação praticamente indiscritível.
Li a história de uma mãe, de um pai e de filho, figuras que se complementam. Ela, a mãe, locutora
de televisão, lê o que não escreveu, conta o que não viveu. E como todos os locutores cabe-lhe
despertar confiança pelo gestual, olhar e sonoridade: aparência. Ele, o pai, um escrevinhador que
não assina. Faz-se fantasma. Oculta-se atrás da assinatura alheia. Não deve nem pode aparecer
nunca. Sombra e fantasma de outro alguém que quer contar, mas não sabe como.
Nosso personagem sabe contar, mas no ofício que escolheu não se sai da sombra. O casal – luz
e sombra - tem um filho, doente de afeto, que não se conforma em herdar a não existência de seus
pais. Grita. Parece ser um autista. A perfeição desse triângulo dispensa comentários.
Li também, neste mesmo livro, olhando de outro ângulo, uma perfeita descrição de uma compulsão
à repetição. O personagem central, José Costa, locupleta-se vivendo na sombra. Diverte-se em não
ser nunca achado.
Não importa aonde, se no Rio de Janeiro ou em Budapeste, ele sempre consegue criar ou encontrar
a sombra que lhe parece a condição mais confortável de vida. Como "ghost writer" de um alemão,
ele assiste seu cliente tornar-se famoso – um best seller. José foge. E vai parar em ruelas sombrias
de Budapeste. Lá onde não conhece ninguém nem fala a língua, ele concretiza sua sensação de
estranheza. Neste fim de mundo reencontra um poeta que conheceu no Rio, que de repente
desaprendeu a escrever. Por compaixão ou por brincadeira, ele acaba escrevendo um livro de
poesia para este autor, que mesmo não tendo contratado seu trabalho, assume sua autoria. Fecske,
o nome do poeta, assina as poesias. José Costa, ou Zsoze Kósta em húngaro, ou Kósta Zsoze,
transforma-se novamente em sombra. É obsessiva a sua necessidade de esquivar-se da luz dos
holofotes ou do sol.
Também li a história de Chico de um outro jeito ainda. As figuras femininas são estáveis, produtivas
e aparecem - falam, ensinam e estão sempre onde se imagina que estejam. Os homens, por sua vez,
são muito mais móveis - brincam, viajam ida e volta. Vanda e Kriska estão lá, esperando. Às vezes
o recebem. Às vezes fazem-no esperar. Mas ambas têm endereço conhecido.
Tem ainda um outro ângulo, donde aparece a língua - linguagem. É difícil viver sem saber a língua
do lugar, que todos falam à sua volta. Também li que a aquisição da linguagem parte dos substantivos.
Os verbos vêm depois, como fazem as crianças.
No Rio, José conhece a língua, mas é uma sombra sem identidade. Em Budapeste instaura-se no
seu consciente a estranheza de quem não entende, nem é capaz de se fazer entender. Quando,
depois de vários meses e duas viagens de ida e volta, ele começa a dominar a língua, ele corre para
a sombra do anonimato para aí encontrar seu gôzo.
"- Língua não se aprende na escola", diz-lhe Kriska, sua professora de húngaro, depois namorada,
depois apenas uma saudade.
Tinha que ser Budapeste. Quando se fala húngaro, língua de ninguém, onde até a ordem do nome/
sobrenome é invertida. Uma mulher no Rio, outra mulher em Budapeste. Nenhuma teme existir.
Ensinam, comunicam, com o rosto iluminado. José/Zsoze passa o livro inteiro encarapitado no
pêndulo entre as duas mulheres, e nunca encontra o conforto do existir sem ambigüidade. E cada
vez mais, a estranheza do homem sem face, sem emprego ou bens de raiz, vai nos transmitindo o
mal-estar insuportável do anonimato, do desenraizado, que não conhece outra maneira de existir
fora da compulsão de viver sem aparecer.
E ele continua escrevendo auto-biografia dos outros, poesia dos outros, que entrega com o espaço
em branco para o outro assinar.
Num certo momento estão todos perdidos. Aquele que assina acaba acreditando que escreveu o
que assina. E aquele que escreveu deixa de se sentir autor.
Kriska e Vanda são tão diferentes quanto são diferentes todas as mulheres entre si. Como diz o
Chico, todas as mulheres que são tão diferentes são iguais quando andando de patins.
Podemos ir de Budapeste ao Rio e refazer o circuito como fez José Costa. Quem nasce para ser
apenas um homem não consegue se tornar herói, nem cá, nem lá. Aliás, o livro não traz heróis.
Existe a estabilidade das mulheres e a procura desesperada dos homens, alguns pela luz, outros
pela sombra. Alguns são canalhas, outros apenas malandros. Uns são "ghost writers", outros
locutores ou professores. Uns inventam, outros criam. Uns procuram os holofotes, outros procuram
a sombra. Em certos momentos Kósta arrisca um tímido querer, um lugar ao sol. Mas isto seria o
asassinato de todos os homens que lhe criam as sombras. Todos os fregueses. Todos que querem
ter seu nome lembrado.
No último retorno ao Rio, ele não tem mais o conforto do cotidiano conhecido. Este se desfez. Ele já
não é mais daqui, apesar de conhecer a língua em todas as suas nuances. Estranho é o mundo
sem cotidiano, estranho é o mundo de língua desconhecida.
Como dizia Kriska – língua não se aprende na escola. Só no convívio. De repente, em qualquer
lugar, cá ou lá, José Costa sente como se andasse em sua própria casa, com a sensação de andar
dentro d´água. José rompe com qualquer cotidiano para ser capaz de se entranhar em outra língua.
Mas isto não basta. Chico nos afirma que é preciso saber esquecer. Para viver "aqui" é preciso
romper com "lá".
Chico Buarque de Holanda escreveu e cantou, há muitos anos atrás, "CONSTRUÇÃO", todinha em
proparoxítona, talvez já pressentindo a chegada do húngaro em sua vida. O húngaro é uma língua
tão única que se aglutina para manter-se proparoxítona. A musicalidade, o ritmo e a cadência do
húngaro é proparoxítona, como as rimas da "CONSTRUÇÃO". Se comparássemos, coisa que não fiz,
pois isto caberia a um artigo e não a uma resenha, as letras e temas das músicas de Chico e o que
nos conta em Budapeste, teríamos muito assunto.
Já na década de 20 e 30, ensinava-se nas escolas de Budapeste que a única cidade que se iguala
à capital da Hungria em beleza era o Rio de Janeiro. Assim dizia minha mãe, que ouviu de uma
professora, e que, portanto, é verdade, porque as professoras e os locutores sabem a verdade.
Não se deixem levar pela angústia da estranheza que Chico joga, sem dó nem piedade, no leitor.
A estranheza não é artigo distribuído em parques de diversão. Estranheza é desconfortável, é o
contato com o desconhecido, é um mergulho na ambigüidade. Em certos momentos podemos fugir
um pouco pelo humor. Mas não se trata de uma comédia. Muitas vezes, para fugir da angústia,
damos risada. Continuem. Leiam até o fim do livro que não tem fim. Um mergulho na estranheza é
base para depois podermos construir. Chico preferiu as proparoxítonas. Você é livre para escolher
a forma que quiser. Mas não desanime. A estranheza é. Se tiver explicação, deixa de ser estranheza.
E o livro deixa de ser Budapeste.
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