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Minha querida VL,
Escrevi este texto pensando em vc. Está um pouco longo.
E totalmente fora do padrão dos meus Cartões Postais.
Não tem link para nada. São
apenas as minhas palavras ao vento. Para mim, elas foram úteis
para pensar no homem que se foi há um ano. Para vc, espero
que elas espalhem
felicidades na sua nova vida.
Quando eu tinha cinco anos e este país vivia a euforia de
querer crescer 50 anos em 5, havia um lugar estranho que eu visitava
em Barretos. Estranho,
mas fascinante.
Para se chegar a esse lugar, primeiro se atravessava um longo corredor.
Parecia que a vida normal ficava para trás daquele portão
de ferro.
Rãs habitavam o quintal desse lugar. Mais estranho (e mais
fascinante) ainda: rãs com umas tinturas nas costas se
é que as rãs têm costas.
Para os meus medrosos olhos de menino, ainda havia coisas mais estranhas
naquele lugar. Coisas atemorizadoras: sangues em vidrinhos (havia
vidrinhos, muitos vidrinhos, vidrinhos de todos os jeitos, uma catedral
imensa in vitro e sem vitrais, com vidros, vidrinhos,
lâminas de vidro). E havia um lugar para se tirar sangue.
Tirar sangue?
Também era um lugar de coisas feias. Nos vidrinhos. E em
latinhas. Fezes. Urina. Na única linguagem que eu conhecia
na época de menino: cocô exixi, se vocês me perdoarem
essas verdades nuas e cruas (por que as crianças podem falar
essas palavras inocentemente se, para nós, adultos, parece
de mau gosto escrevê-las?).
Havia também um lugar estranho para os hábitos barretenses.
Uma sala abarrotada de livros. Livros em estantes, livros (aos montes)
em cima da escrivaninha. Quem poderia ler tantos livros? Em um quadrinho,
uma palavra que levei anos para conseguir ler: dermatologia. Ali,
se falava também em análises clínicas.
Análises clínicas?
Entre as pessoas que freqüentavam esse lugar estranho havia
um homem muito magro que ficava sentado em um banco redondo, sem
encosto para as suas curvadas espáduas, com a cabeça
curvada sobre um aparelho em que era muito difícil enxergar
as coisas, contando figuras infinitesimais,fumando assombrosamente
um cigarro após o outro e tomando garapa geladíssima
no calor infernal da cidade. Havia um grave, pesado, silêncio
ali.
Alguns anos depois, nada era mais atrativo para mim do que sair
do Grupo Escolar Dr. Antonio Olympio, descer a rua 18 e entrar no
corredor que levava aos fundos do número 1045. A vida era
muito simples. O número do telefone jamais saiu da minha
memória: 622. A atração exercida por aquele
lugar era inexplicável, pois eu tinha pouquíssima
identidade com tudo dali: tinha repugnância das rãs,
medo de tirar sangue, não me sentia atraído pelos
livros nem pelas revistas médicas...
Mais do que isso: aquele homem magro demais, fumante demais, era
bravo demais comigo, falava pouco demais comigo, era carinhoso de
menos comigo. O único traço de afetividade quase explícita
era o copo gostoso de garapa gelada, para quem vinha suando e com
fome do Grupo Escolar.
Deve ser por isso que a recordação daquele escuro
caldo-de-cana seja tão recorrente nas memórias da
minha infância.
Passou algum tempo até eu aprender que as rãs eram
usadas para descobrir se uma mulher estava grávida, aliás,
o que era uma mulher grávida? Que aqueles vidrinhos tinham
o nome de tubo de ensaio _e eu tive de fazer muita experiência
com eles no ginásio e no colegial. Que aquele aparelho para
olhar serzinhos minúsculos se chamava microscópio.
Que eu precisaria conviver com um dermatologista para o resto da
vida, escolhido que fui para ter uma inexplicável até
hoje- disfunção que cicatriza mais rápido do
que ela deve cicatrizar. Cicatrizes da vida.
Muito mais difícil foi aprender quem era aquele homem que
imperava gravemente naquele lugar estranho. Tempos depois, aquele
lugar estranho mudou-se para a rua 28. E foi ficando cada vez menos
estranho. Ele saiu dos fundos e foi para a frente da rua. Chegou
mais perto do mundo.
O homem magro engordou um pouco. Parou de fumar. Parou de tomar
garapa. Um outro homem começou a nascer dentro dele. Passou
a dividir o banquinho com um escritório mais amplo e, às
vezes, até com um sofá horrivelmente colorido. Colorido?
Ele passou a beber ali, no final do expediente. Alguns amigos passavam
por ali. Ouviam-se vozes no lugar. Ali, no crepúsculo da
rua 28, a vida finalmente podia se desguardar. Comecei a entender
um pouco mais aquele homem. Não havia mais rãs.
Mas continuavam o sangue, as fezes, a urina. O homem nunca os abandonou
só tirou dez (dez!) dias de férias deles em
mais de 40 anos de trabalho. Com eles, o homem pôde dar uma
educação muito acima da média para os filhos
(e poucos deixaram uma herança tão rica quanto a que
ele deixou). Com eles, ele pôde ficar independente para defender
calorosamente a ética da sua profissão. Para dizer
e escrever desaforos (alguns injustos e mal educados até)
a torto e a direito. Com eles, ele pôde fazer inúmeros
projetos como vereador, extremamente conservador em alguns pontos
e extremamente avançado em outros. Por que ele optou por
eles?
Para se defender dos homens. Para ele, era mais suportável
lidar com as entranhas dos homens do que com o caráter dos
homens. Viver, para ele, era tentar transformar. Mas não
se consegue tentar transformar o tempo todo. Era preciso momentos
de trégua. Não para os outros. Mas para ele mesmo.
Momentos concentrados, silenciosos, quase uma espécie de
meditação ao microscópio. Procurando enxergar
grande no miúdo humano.
No fim-da-vida, o homem dedicou-se a conseguir, mês a mês,
o certificado de excelência do trabalho que fazia. Parecia
que, ali, estava construindo outro riquíssimo patrimônio.
Que ele deixou como herança. A qualidade dos serviços
prestados por aquele lugar que ele criou e que leva o seu nome.
O laboratório do Dr. Suzuki. Que, hoje, nasce de novo. Conservando
a ética e o compromisso com a qualidade que estão
associados a ele desde o tempo das rãs da rua 18_e que meus
irmãos e eu temos certeza que vc vai saber preservar. Mas,
se renovando porque mudar é preciso.
M, de mano.
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