Colunistas : Matinas Suzuki Jr.
Sinopses da Imprensa
NotÕcias Gerais
Dinheiro
Futebol
TodoEsporte
Mundo Virtual
Cultura
Bem Estar
Colunistas
Matinas
Suzuki Jr.

  Alberto Helena Jr.
  Cristiana Lôbo
  Fábio Sormani
  Fernando Morais
  Marcelo Fromer
  Paulo Cleto
  Ruy Carlos Ostermann
  Wilson Baldini Jr.
  Melhores
Reportagens
Hoje Vai ser Diferente
Matinas Suzuki Jr. (msuzuki@ig.com.br)
ilustração: Maria Eugênia (maeugenia@ig.com.br)

 


Minha querida VL,


Escrevi este texto pensando em vc. Está um pouco longo. E totalmente fora do padrão dos meus Cartões Postais. Não tem link para nada. São
apenas as minhas palavras ao vento. Para mim, elas foram úteis para pensar no homem que se foi há um ano. Para vc, espero que elas espalhem
felicidades na sua nova vida.


Quando eu tinha cinco anos e este país vivia a euforia de querer crescer 50 anos em 5, havia um lugar estranho que eu visitava em Barretos. Estranho,
mas fascinante.
Para se chegar a esse lugar, primeiro se atravessava um longo corredor. Parecia que a vida normal ficava para trás daquele portão de ferro.
Rãs habitavam o quintal desse lugar. Mais estranho (e mais fascinante) ainda: rãs com umas tinturas nas costas –se é que as rãs têm costas.
Para os meus medrosos olhos de menino, ainda havia coisas mais estranhas naquele lugar. Coisas atemorizadoras: sangues em vidrinhos (havia vidrinhos, muitos vidrinhos, vidrinhos de todos os jeitos, uma catedral imensa “in vitro” e sem vitrais, com vidros, vidrinhos, lâminas de vidro). E havia um lugar para se tirar sangue. Tirar sangue?
Também era um lugar de coisas feias. Nos vidrinhos. E em latinhas. Fezes. Urina. Na única linguagem que eu conhecia na época de menino: cocô exixi, se vocês me perdoarem essas verdades nuas e cruas (por que as crianças podem falar essas palavras inocentemente se, para nós, adultos, parece de mau gosto escrevê-las?).
Havia também um lugar estranho para os hábitos barretenses. Uma sala abarrotada de livros. Livros em estantes, livros (aos montes) em cima da escrivaninha. Quem poderia ler tantos livros? Em um quadrinho, uma palavra que levei anos para conseguir ler: dermatologia. Ali, se falava também em “análises clínicas”. Análises clínicas?
Entre as pessoas que freqüentavam esse lugar estranho havia um homem muito magro que ficava sentado em um banco redondo, sem encosto para as suas curvadas espáduas, com a cabeça curvada sobre um aparelho em que era muito difícil enxergar as coisas, contando figuras infinitesimais,fumando assombrosamente um cigarro após o outro e tomando garapa geladíssima no calor infernal da cidade. Havia um grave, pesado, silêncio ali.
Alguns anos depois, nada era mais atrativo para mim do que sair do Grupo Escolar Dr. Antonio Olympio, descer a rua 18 e entrar no corredor que levava aos fundos do número 1045. A vida era muito simples. O número do telefone jamais saiu da minha memória: 622. A atração exercida por aquele lugar era inexplicável, pois eu tinha pouquíssima identidade com tudo dali: tinha repugnância das rãs, medo de tirar sangue, não me sentia atraído pelos livros nem pelas revistas médicas...
Mais do que isso: aquele homem magro demais, fumante demais, era bravo demais comigo, falava pouco demais comigo, era carinhoso de menos comigo. O único traço de afetividade quase explícita era o copo gostoso de garapa gelada, para quem vinha suando e com fome do Grupo Escolar.
Deve ser por isso que a recordação daquele escuro caldo-de-cana seja tão recorrente nas memórias da minha infância.
Passou algum tempo até eu aprender que as rãs eram usadas para descobrir se uma mulher estava grávida, aliás, o que era uma mulher grávida? Que aqueles vidrinhos tinham o nome de tubo de ensaio _e eu tive de fazer muita experiência com eles no ginásio e no colegial. Que aquele aparelho para olhar serzinhos minúsculos se chamava microscópio. Que eu precisaria conviver com um dermatologista para o resto da vida, escolhido que fui para ter uma inexplicável –até hoje- disfunção que cicatriza mais rápido do que ela deve cicatrizar. Cicatrizes da vida.
Muito mais difícil foi aprender quem era aquele homem que imperava gravemente naquele lugar estranho. Tempos depois, aquele lugar estranho mudou-se para a rua 28. E foi ficando cada vez menos estranho. Ele saiu dos fundos e foi para a frente da rua. Chegou mais perto do mundo.
O homem magro engordou um pouco. Parou de fumar. Parou de tomar garapa. Um outro homem começou a nascer dentro dele. Passou a dividir o banquinho com um escritório mais amplo e, às vezes, até com um sofá horrivelmente colorido. Colorido? Ele passou a beber ali, no final do expediente. Alguns amigos passavam por ali. Ouviam-se vozes no lugar. Ali, no crepúsculo da rua 28, a vida finalmente podia se desguardar. Comecei a entender um pouco mais aquele homem. Não havia mais rãs.
Mas continuavam o sangue, as fezes, a urina. O homem nunca os abandonou –só tirou dez (dez!) dias de férias deles em mais de 40 anos de trabalho. Com eles, o homem pôde dar uma educação muito acima da média para os filhos (e poucos deixaram uma herança tão rica quanto a que ele deixou). Com eles, ele pôde ficar independente para defender calorosamente a ética da sua profissão. Para dizer e escrever desaforos (alguns injustos e mal educados até) a torto e a direito. Com eles, ele pôde fazer inúmeros projetos como vereador, extremamente conservador em alguns pontos e extremamente avançado em outros. Por que ele optou por eles?
Para se defender dos homens. Para ele, era mais suportável lidar com as entranhas dos homens do que com o caráter dos homens. Viver, para ele, era tentar transformar. Mas não se consegue tentar transformar o tempo todo. Era preciso momentos de trégua. Não para os outros. Mas para ele mesmo. Momentos concentrados, silenciosos, quase uma espécie de meditação ao microscópio. Procurando enxergar grande no miúdo humano.
No fim-da-vida, o homem dedicou-se a conseguir, mês a mês, o certificado de excelência do trabalho que fazia. Parecia que, ali, estava construindo outro riquíssimo patrimônio. Que ele deixou como herança. A qualidade dos serviços prestados por aquele lugar que ele criou e que leva o seu nome.
O laboratório do Dr. Suzuki. Que, hoje, nasce de novo. Conservando a ética e o compromisso com a qualidade que estão associados a ele desde o tempo das rãs da rua 18_e que meus irmãos e eu temos certeza que vc vai saber preservar. Mas, se renovando porque mudar é preciso.

M, de mano.

 

Colunas anteriores

27/09 Estátua para ele?
25/09 Cervejas
22/09 Rolling Stone
20/09 Obituários
19/09 A Marca do Z
18/09 A Revista e Nós
17/09 Cheers
15/09 Markeditorial
13/09 Cidades
12/09 Sua Casa
11/09 A Revista


mais...