 |
Minha jovem jornalista,
Outro dia, enviei um Cartão Postal que falava da Gisele Bundchen
na capa da revista Rolling Stone. Eu me perguntava
se ela tinha noção da importância que a capa
da RS tem para a história do jornalismo.
Pouco tempo depois, fui ao maravilhoso mundo das capas da Rolling
Stone para preparar uma aula sobre design em revistas. Salutar
mergulho nas capas da RS.
Quando tudo começou, na Califórnia dos 60, no auge
da revolução comportamental mais importante após-Guerra,
não se sabia se era um jornal ou uma revista. Mas, isso não
importava.
Saiba que cada época nova precisa de novas formas de comunicação.
Diferentes conjunturas históricas pedem diferentes formas
de jornalismo. Não existem fórmulas editoriais que
funcionem em qualquer lugar. Em qualquer tempo. A RS
sacou isso. E foi a glória de uma geração.
Na qual, a minha pongou o bonde. Pegou carona.
Lembro-me quando chegou ao Brasil. Ezequiel Zeca Jagger
Neves. AM Baiana. E o mundo dissonante para ser lido, sentido, guardado,
cuidadosamente colecionado como a bíblia de uma outra atitude
perante a vida.
Minha jovem jornalista, lembre-se do contexto em que ela chegou
em sua versão brasileira: endurecimento do regime militar,
crescimento do moralismo conservador nas famílias, censura.
A cultura rock chegava soprando ao vento uma alternativa ao negror
dos tempos. Era a pré-Ilustrada. O santo espírito
do que a seção de cultura da Folha faria
nos 80.
Mesmo na cultura alternativa, não se faz nada pra valer sem
um grande time: Annie Leibovitz, Richard Avedon e Herb Ritt na fotografia.
Na direção de arte e nas ilustrações,
Garry Trudeau e Milton Glaser, entre outros, além de um monte
de craque nos textos. Norman Mailer entre eles. As capas das mortes
dos Js (Jimi Hendrix, Janis Joplin e Jim Morrison), idênticas
na sua concepção, são o portas-retrato de uma
época vigorosa (enquanto escrevo, me vêm à cabeça
as imagens de um comercial da época 1970 contra
o uso de drogas, com Joplin cantando Summertime ao fundo;
foi a única maneira de ela aparecer no horário nobre
da TV brasileira e isso era forte, fulminante, para aqueles que
tinham um sonho).
Talvez a Rolling Stone não faça nenhum
sentido para vc. Talvez ela faça muito pouco sentido para
a menina Gisele. Mas há, nela, algo que serve de inspiração
forte para a nova época que se inaugura. Não é
à toa que o ambiente dela e o da cultura da Internet são
a mesma Califórnia.
Um abraço,
M, de momentos passados (e futuros)
PS: No final dos 80, depois que a Rolling Stone passou
a adotar o formato de revista de alta qualidade gráfica,
o diretor de arte Fred Woodward passou a dar um show de bola em
suas capas e nas páginas duplas de abertura de matéria.
Veja a edição de Bruce Springsteen de 90, a capa de
Sinéad O`Connor de 91e a de Dennis Rodman de 1996..
|