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Minha jovem jornalista,
Obituários. Vc não sabe o que é. Não
sabe por que os jornalistas mais velhos dão tanta importância
a eles. Vc acha que é uma coisa mórbida. Escrever
sobre mortos. Para quê?
Minha jovem, em primeiro lugar, eles não são sobre
a morte. São sobre a vida. Algumas vidas extraordinárias
e quase anônimas que a gente só descobre que aconteceram
justamente por causa deles. Os obituários.
A imprensa brasileira não gosta deles. Durante anos, na F.,
procuramos jornalistas para fazer obituários. Tarefa inglória.
Em parte, porque faz parte da cultura do país. Há
um certo desdém. Uma certa irreverência que não
nos permite levar a sério a crônica sobre a vida depois
da morte. Dos muitos países sem memória, nós
somos o mais desmemoriado.
Mas, também, porque este não é um jornalismo
fácil de se fazer. Demanda pesquisa. O obituário ideal
tem apuração. Faz entrevistas. Precisa de um tom.
Nem sempre grave. Os obituários mais relevantes das imprensas
britânica e americana, muitas vezes, são escritos em
tom leve. No Brasil, tende a descambar para o chororó e para
o emocionalismo barato.
O bom obituário é informativo. Quando alguém
importante morre, a imprensa brasileira, em vez de informar, acende
as velas. Para mim, os grandes obituários não são
os de figuras conhecidas. São de pessoas quase anônimas.
Na leitura, você vai descobrindo a dimensão reveladora
da vida delas. Mesmo que tenham sido pessoas do mal. Em um obituário
bem feito, as vidas se tornam maiores do que a vida.
Como bem lembra o AD, o obituário fica entre a grande biografia
e o perfil. Requer do jornalista uma capacidade de interpretação
de vidas vividas. Para selecionar o que foi importante nas biografias
relatadas. Isso não é coisa para principiantes.
Escrever sobre a vida dos outros é, de certa forma, revelar
a própria vida. O obituário precisa ser bem escrito.
É obrigatório que seja bem escrito. E isso, minha
jovem jornalista, nós os brasileiros não andamos fazendo
bem. Quem sabe a sua geração acende esta chama. Um
abraço,
M, de mande notícias
PS: A revista "The Economist" fez, na virada do milênio,
o obituário de Jesus Cristo. Uma grande idéia. Divinamente
escrito. O tom, em imprensa é preciso sempre encontrar um
tom, é de uma intimidade tal que o transformaram em um cidadão
comum. Cidadão Jesus.
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Trecho do obituário de Jesus feito pela revista "The
Economist"
(tradução de Leão Serva)
A
imaginação dá cores às reminiscências
de Mateus, Marcos, Lucas e João, os quatro narradores
da história cristã. Os Evangelhos são
breves e deixam o leitor procurando mais. Nenhuma manjedoura
é mencionada no Evangelho, mas é difícil
imaginar uma encenação infantil de natal sem
ela. Pouco é dito sobre a infância de Jesus,
mas há menções em Marcos e Mateus de
que ele tinha quatro irmãos e pelo menos duas irmãs.
A descrição de João da provisão
de vinho feita por Jesus em um casamento em Cana pode indicar
que Jesus era casado, como de fato a maioria dos homens judeus
seria ao chegar nos seus trinta anos."
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SAIBA
MAIS
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