Colunistas : Matinas Suzuki Jr.
17.9.2000
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Matinas Suzuki Jr. (msuzuki@ig.com.br)
ilustração: Maria Eugênia (maeugenia@ig.com.br)

 

 

Minha jovem jornalista,


Obituários. Vc não sabe o que é. Não sabe por que os jornalistas mais velhos dão tanta importância a eles. Vc acha que é uma coisa mórbida. Escrever sobre mortos. Para quê?
Minha jovem, em primeiro lugar, eles não são sobre a morte. São sobre a vida. Algumas vidas extraordinárias e quase anônimas que a gente só descobre que aconteceram justamente por causa deles. Os obituários.
A imprensa brasileira não gosta deles. Durante anos, na F., procuramos jornalistas para fazer obituários. Tarefa inglória.
Em parte, porque faz parte da cultura do país. Há um certo desdém. Uma certa irreverência que não nos permite levar a sério a crônica sobre a vida depois da morte. Dos muitos países sem memória, nós somos o mais desmemoriado.
Mas, também, porque este não é um jornalismo fácil de se fazer. Demanda pesquisa. O obituário ideal tem apuração. Faz entrevistas. Precisa de um tom. Nem sempre grave. Os obituários mais relevantes das imprensas britânica e americana, muitas vezes, são escritos em tom leve. No Brasil, tende a descambar para o chororó e para o emocionalismo barato.
O bom obituário é informativo. Quando alguém importante morre, a imprensa brasileira, em vez de informar, acende as velas. Para mim, os grandes obituários não são os de figuras conhecidas. São de pessoas quase anônimas. Na leitura, você vai descobrindo a dimensão reveladora da vida delas. Mesmo que tenham sido pessoas do mal. Em um obituário bem feito, as vidas se tornam maiores do que a vida.
Como bem lembra o AD, o obituário fica entre a grande biografia e o perfil. Requer do jornalista uma capacidade de interpretação de vidas vividas. Para selecionar o que foi importante nas biografias relatadas. Isso não é coisa para principiantes.
Escrever sobre a vida dos outros é, de certa forma, revelar a própria vida. O obituário precisa ser bem escrito. É obrigatório que seja bem escrito. E isso, minha jovem jornalista, nós os brasileiros não andamos fazendo bem. Quem sabe a sua geração acende esta chama. Um abraço,

M, de mande notícias

PS: A revista "The Economist" fez, na virada do milênio, o obituário de Jesus Cristo. Uma grande idéia. Divinamente escrito. O tom, em imprensa é preciso sempre encontrar um tom, é de uma intimidade tal que o transformaram em um cidadão comum. Cidadão Jesus.

Trecho do obituário de Jesus feito pela revista "The Economist"
(tradução de Leão Serva)

A imaginação dá cores às reminiscências de Mateus, Marcos, Lucas e João, os quatro narradores da história cristã. Os Evangelhos são breves e deixam o leitor procurando mais. Nenhuma manjedoura é mencionada no Evangelho, mas é difícil imaginar uma encenação infantil de natal sem ela. Pouco é dito sobre a infância de Jesus, mas há menções em Marcos e Mateus de que ele tinha quatro irmãos e pelo menos duas irmãs. A descrição de João da provisão de vinho feita por Jesus em um casamento em Cana pode indicar que Jesus era casado, como de fato a maioria dos homens judeus seria ao chegar nos seus trinta anos."

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